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O jornal italiano Corriere Della Sera publicou, na edição de sábado, entrevista feita por Massimo Gaggi com Ben Rhodes. Mas quem é Rhodes? Bom, ele trabalha na Casa Branca, onde seu espaço físico se resume a 10 metros quadrados, sem janelas. Portanto, claustrofóbico não é. E o que faz ali nessa sala “microscópica”?

Rhodes define seu trabalho como experiência única

Rhodes define seu trabalho como experiência única

Ben Rhodes, 37 anos de idade, trabalha com e para o presidente Barack Obama desde a campanha eleitoral que o levou ao primeiro mandato. Portanto, está ao lado dele há sete anos. De lá para cá, a relação foi se estreitando de tal maneira que hoje ele diz, sem medo de errar, que “já entrei na cabeça dele”. E não poderia ser diferente. Esse emprego, realmente “full time”, cobra sua renúncia às férias e ao sono, inclusive porque Obama gosta de revisar os discursos – escritos por Ben – depois da meia-noite.

Ao longo dos últimos sete anos, Rhodes trabalhou em projetos muito caros ao presidente dos Estados Unidos e altamente secretos, também como conselheiro. Entre eles, a reaproximação com Cuba. Também já viu a reação dele diante de notícias como a tragédia Lo Porto e a morte de reféns. E diz: “Eu vi, literalmente, Obama envelhecer diante de meus olhos”.

Mas nesta entrevista falta um assunto importante: no dia 11 de setembro, Obama assinou a prorrogação – por mais um ano – do embargo econômico imposto a Cuba no dia 7 de fevereiro de 1962, quando John Fitzgerald Kennedy presidia Estados Unidos. Em declaração sob anonimato, um alto funcionário do governo norte-americano explica que “essa decisão implica, ainda que pareça o contrário, que Obama segue mantendo sua autoridade e “flexibilidade” para relaxar as sanções a Cuba mediante decretos executivos”.

Afora isso, o jornalista italiano aceitou sem questionar a resposta rápida – e evasiva – do conselheiro de Obama sobre a ajuda norte-americana aos que fogem de países convulsionados e em ruínas, como Iraque e Síria. Por que não insistir no tema? Afinal, a política externa intervencionista dos Estados Unidos é altamente responsável pela miserabilidade dos que agora buscam refúgio na Europa, pois abriu espaço para o radicalismo dos integrantes do EI.

PQuais foram os momentos mais dramáticos que já viveu com Barack Obama-delivers-a-statement-on-the-situation-in-IraqObama?

Ben Rhodes – A morte de 17 navy seals (do Comando Naval de Operações Especiais) quando, em 2011, os talibãs abateram um helicóptero durante uma missão no Afeganistão ordenada pelo presidente. E, mais recentemente, o voluntário italiano Giovanni Lo Porto e o refém americano Warren Weinstein foram feridos em ataque de drone ordenado para eliminar terroristas. Eu estava com Obama quando a notícia chegou e “o vi, literalmente, envelhecer diante de meus olhos. Comecei imediatamente a escrever um comunicado, mas ele próprio queria escrevê-lo”. Disse: “Isso aconteceu em decorrência de uma decisão tomada por mim, preciso enfrentar as câmeras, para explicar e assumir a responsabilidade”. Também houve momentos belos: a bandeira hasteada na embaixada dos Estados Unidos reaberta em Cuba; a aliança com a China para evitar o desastre ambiental; o acordo nuclear com o Irã. E eu estava com Obama no Salão Oval da Casa Branca quando, há dois anos, ele falou pelo telefone com o presidente Rouhani (do Irã). O momento foi emocionante: sentimos o peso de tudo que havia acontecido desde 1979, mas também vimos a oportunidade que se abria.

No centro dos acontecimentos

Ben Rhodes explica que precisou modificar seus projetos familiares, porque um trabalho como este provoca uma reviravolta na vida da gente. Um exemplo: “Faz dois anos, no meu primeiro dia de folga, aconteceu o ataque químico sírio. Cancelei tudo. Neste ano passei minhas férias ao lado do presidente, em Martha’s Vineyard: convocado de urgência por causa da crise na Ucrânia e por causa da ofensiva do Isis (radicais islâmicos). Mas é assim todos os dias. As crises na Ásia, na África ou na Europa vão sendo enfrentadas quando explodem, a qualquer hora. E Obama ama revisar seus discursos à noite. Às vezes me pede que volte à Casa Branca depois da meia-noite”.

É duro. E “quem se vai daqui logo melhora de aparência: perde peso e parece cinco anos mais jovem”. O que o segura na Casa Branca? “Fico neste subterrâneo sem janelas porque aqui estou no centro dos acontecimentos e aqui se tem uma oportunidade única de plasmar um período histórico de grande complexidade e de profundas transformações. Não existe outro trabalho como este e já sei que vou sentir falta dele. Além de tudo, ficar significa ver a realização de um projeto, colher os frutos de um trabalho feito”. Mais um exemplo: “Obama anunciou o objetivo de recolocar o Irã no tabuleiro internacional em 2007 e está cumprindo uma promessa de sua primeira campanha eleitoral. Se eu tivesse ido embora há três anos não teria visto o acordo nuclear realizado, a batalha politica para que fosse aceito, o voto do Congresso que bloqueia as tentativas de êxito”.

PHá quem acusa Obama de conduzir uma política externa um pouco “naive”, porque aceitou uma exigência baseada sobre a esperança de que Teerã renuncie às armas atômicas depois de experimentar o benefício do retorno à comunidade internacional. Esperar, dizem, é legítimo; mas não é uma estratégia de segurança nacional.

Com Rouhani, do Irã, a busca de um acordo sobe a energia nuclear

Com Rouhani, do Irã, a busca de um acordo sobe a energia nuclear

Ben Rhodes – Eu acredito que seja “naive” tentar desmontar um acordo negociado ao longo de anos, metodicamente, com grande determinação e cuidado com todos os detalhes, em nome do retorno a uma lógica do passado que nada produziu de bom. Negociamos durante anos sobre tudo, procurando cada salvaguarda possível para assegurar que os iranianos não trapaceassem. Certo, o regime de Teerã continua sendo profundamente diferente, mas este é o mundo em que vivemos. E o acordo pode abrir o caminho a cenários e soluções políticas que há um tempo eram impensáveis. Não se pode partir do pressuposto de que Irã nunca irá mudar: em política externa é preciso considerar as oportunidades, não somente as ameaças.

PO senhor estudou Ciências Políticas, mas fez seu mestrado em Literatura. Sente falta de uma carreira diplomática?

Ben Rhodes – Antes de trabalhar com Obama trabalhei, durante cinco anos, para o senador Lee Hamilton. Com ele me ocupei muito dos negócios internacionais. E também iniciei então a minha carreira de speechwriter.

Da ficção ao poder

PComo chegou à política? Depois da universidade parecia que gostaria de ser escritor. Deixou um romance pela metade – Oasis of love , sobre uma mulher que abandona seu namorado para entrar na congregação de uma mega igreja de Houston. Vai terminá-lo quando deixar a Casa Branca?

Ben Rhodes – Não, vai continuar na gaveta. Não sei o que farei no futuro. O que estou fazendo permanecerá como experiência única. Não me vejo entrando e saindo de cargos administrativos. Quero, seguramente, ser um autor, mas não no campo da ficção. Quanto à dedicação à política, é uma decisão que tomei há exatamente 14 anos, no dia do ataque às torres gêmeas (Wordl Trade Center). Estava em Brooklyn, ajudando um conselheiro comunitário em sua campanha eleitoral. De lá vi o segundo avião da Al Qaeda entrar na torre e, depois, o primeiro arranha-céu se desmanchando e caindo. Então decidi passar dos relatos de fantasia a qualquer coisa que tivesse contato com a realidade política.

PObama olha para a Ásia, ao livre comércio e ao meio ambiente, mas a emergência de todos os dias é o terrorismo. Em uma guerra feita com drones há menos vítimas que com o envio de tropas, mas ele termina emitindo sentenças de morte sem processo. Por que Obama tomou esta responsabilidade em vez de delegá-la aos militares?

Ben Rhodes – Esse é um dos tormentos dele. É uma coisa terrível, mas também sabe que é o menos cruel dos instrumentos à sua disposição. Por isso tem sido muito prudente no uso do aparato bélico americano. No entanto, para também procura codificar para o futuro – sempre que possível – um sistema baseado em dados objetivos, a fim de reduzir ao mínimo o arbítrio da intervenção presidencial. Mas a responsabilidade final deve ser da Casa Branca.

PA América que promete acolher mais dez mil sírios não parece pronta a fazer muito.

Ben Rhodes – No fim dos tempos do Vietnam acolhemos muitos refugiados. E temos nossos problemas na América.

PPode contar alguma coisa sobre as tratativas secretas para Cuba, que conduziu pessoalmente? E até que ponto esta reaproximação é também mérito do papa Francisco, que estará em Havana nos próximos dias – de 19 a 21 de setembro -, antes de sua visita aos Estados Unidos?

A bandeira novamente hasteada na embaixada de Cuba, um momento histórico

A bandeira novamente hasteada na embaixada de Cuba, um momento histórico

Ben Rhodes – Negociamos durante um ano e meio com os cubanos, mas em total segredo. Nossos encontros ocorriam em Ottawa, no Canadá. Foi um tempo necessário para nos conhecermos e para construir um clima de confiança recíproca. Havia muitos nós, difíceis de serem desatados. Quando, finalmente, parecia que havia um bom rascunho, fomos todos ao Vaticano. Foi um momento incrível: nós e os cubanos lado a lado transformando coisas antes ditas de modo informal em compromisso diante da autoridade da Igreja. De repente tudo se tornou real: não havia mais como voltar atrás. Lembro-me da rapidez com que saí do Vaticano com o outro negociador americano. Vagamos por Roma, depois fomos jantar num restaurante típico, sabendo ambos que tínhamos feito a nossa parte: agora estava tudo nas mãos da Igreja. O papel do papa foi fundamental. E não somente em se tratando de Cuba. Ele é um líder espiritual, mas também um personagem cuja voz é importante no desafio que enfrentamos todos os dias, da desigualdade ao meio ambiente. O pontífice tem sido grande fonte de inspiração em várias frentes para o presidente, que está impaciente. Quer recebê-lo em Washington.

PO papa na Casa Branca abre uma temporada intensa. Obama coloca em jogo boa parte de sua herança política.

Ben Rhodes – É verdade. Temos a visita do presidente chinês, Xi Jinping, à Assembleia da ONU, esperamos fechar o tratado de “free trade” com a Ásia e chegar a um grande acordo sobre o clima na Conferência de Paris, em dezembro: uma exigência feita na Conferência de Copenhague em 2009 e que não deu os resultados esperados. Este é outro motivo para ficar na Casa Branca e colher os frutos, como disse antes.

PO que faz com que sua comunicação com o presidente seja tão estreita?

Ben Rhodes – Acredito que se deve ao fato de ter uma sensibilidade bastante semelhante à dele. Depois, à sua vontade de assumir riscos, de desafiar o velho modo de Washington de enfrentar os problemas: virar a página e abrir caminho para uma geração mais jovem. Mas também contribui muito o fato de trabalhar com ele como speechwriter, uma atividade que te leva a um contato estreito com teu chefe. Quando se escreve para alguém é preciso conhecer bem essa pessoa, porque está fazendo algo de muito pessoal, que é exprimir as ideias dela, comunicar suas visões. Esta é uma experiência única.

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