Denúncia de assédio

Vou contar uma história que, acredito, vai interessar a muita gente deste país: há cerca de dois anos sofro o assédio, via telefone fixo, de gente que se diz representante da Editora 3. Essa perseguição começou quando, depois de um ano, decidi não renovar a minha assinatura da IstoÉ. A partir de determinado momento, a insistência virou ameaça – “é possível debitar os valores na sua conta usando o número do CPF”, ouvi. 
Então entrei em contato com a Editora 3 via telefone e via e-mail. As queixas que encaminhei e as respostas que recebi, com pedidos de desculpas, estão devidamente arquivadas. Fim do meu drama? Não. Ontem, sexta-feira, recebi chamada através de celular da Claro. Dessa vez ela veio do número: 05121981527 (tenho outros registrados, extremamente perseguidores). Do outro lado da linha, Marina – ela disse que estava falando de dentro da empresa Editora 3 – quis saber de meus motivos para recusar a revista. 
Fui paciente. Expliquei tudo outra vez. Em pormenores: desagrada-me o assédio do telemarketing e, como jornalista, considero a linha editorial da revista absolutamente ruim. Marina se mostrou compreensiva e atribuiu o assédio ao trabalho mal feito de terceirizados na venda de assinaturas e, mais uma vez, pediu desculpas. Fim do drama? Não. Hoje, pelo telefone fixo, ouvi: “Sou Adriana Rocha e falo da central de bloqueio”. De qual central de bloqueio? “Do Mastercard”, foi a resposta. E bloqueio do quê?
Então ela me informou que a “editora 3 lançou a renovação de sua assinatura em 12 parcelas de R$ 139,90”. Como assim? Protestei afirmando que considero isso um assalto. Despudorado. Mas, segundo a tal “Adriana”, a tal editora pode fazer isso agora e continuar fazendo porque tem acesso a minha conta através do meu CPF, que ela disse inteiro. Eu, obviamente, não aceitei o argumento, da mesma forma que me recuso a aceitar a renovação não autorizada de uma assinatura. Então veio a proposta: em vez de “12 parcelas a senhora paga três de R$ 139,90”. Recusei novamente. E ouvi mais uma proposta indecente: o pagamento de apenas uma parcela, agora de R$ 199,00. E qual o papel do Mastercard nisso? E qual a responsabilidade do Banco do Brasil nisso?
Para tornar o achaque mais confiável, a tal Adriana Rocha me passou dois números de telefone; através deles poderia conversar com ela em caso de dúvidas: 0800 883 0657 e (011) 32594105. A essa altura eu já estava em ponto de fervura. E cortei a ligação. Pronta para pesquisar: a quem pertencem esses números? Fui em busca da resposta. Então constatei, via internet, que não sou a única assediada no país. Não contente, entrei em contato com a Central de Atendimento do Mastercard, de onde ouvi que a alegada “central de bloqueio” em nome da qual se apresentou a tal Adriana simplesmente não existe; o Mastercard não faz esse tipo de chamada. Prestimosa, a pessoa me colocou em contato com a Central de Atendimento do Banco do Brasil, onde relatei o ocorrido. Mais uma vez.
Sei que estou contando uma desagradável experiência pessoal, mas resolvi passá-la adiante como alerta: as gangues no país não existem apenas no Congresso. Estão espalhadas, de forma organizada, pelo Brasil inteiro. Essa gente desonesta que opera na política, em Brasília, se criou bem aqui, na planície. A vocação para o malfeito se vê nas ruas. Por exemplo: o pedestre que atravessa o corredor de ônibus quando o semáforo está aberto para o coletivo; o morador do prédio que joga material reciclável no conteiner destinado ao lixo orgânico; aquele que perde a máscara da decência por causa de míseros R$ 3 milhões – míseros se comparados com os valores levantados pela Lava-jato e pela Operação Zelotes – quando define, em torno de uma solene mesa de reuniões, quem será o vencedor de uma licitação; e essa gente que tenta intimidar e impor a assinatura de uma revista. Enfim, a lama espalhada pela Samarco é somente parte da tragédia em que viver no Brasil se transformou. Essa terra maravilhosa, rica em diversidade, merece que seu povo seja mais honesto.

PS – Quando registrei o assédio na polícia, a escrivã de plantão me aconselhou a levar o caso adiante, na Justiça. Fiz exatamente isso e quem defendeu minha causa foi o advogado Felipe Krebs. O resultado: a editora foi condenada ao pagamento de uma multa de R$ 3 mil reais. Em outubro e novembro de 2016 recebi duas das três parcelas negociadas. A terceira, que venceu em dezembro, recebi somente agora, em julho de 2017. E sobre o atraso no pagamento desta parcela a empresa deverá pagar juros.

 

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