Quem venceu a eleição?

O resultado das eleições em Porto Alegre:
Brancos, nulos e abstenções: 433.751 ou 39.49%
Marchezan Jr: 402.165 votos ou 36.61%
Melo: 262.601 ou 23.90%
TOTAL: 1.098.517 igual a 100,00%.

O jornalista Lino Brum propôs hoje, em sua página no Facebook, uma reflexão sobre o resultado da eleição em Porto Alegre, apresentando o quadro acima. Acho que se presta a várias interpretações. Além disso, penso que ver nele a vitória do candidato do PSDB, Nelson Marchezan Jr, também pode estar bem de acordo com o que se entende como aplicação da justiça no País: uma questão de vírgula. Dependendo de onde a colocamos, o criminoso é inocente e o inocente é criminoso.
É por isso que, segundo estudiosos, a palavra pode ser usada como arma. Também é por isso que consigo ver mal disfarçada hipocrisia na lei eleitoral em vigor no País. A começar pela obrigatoriedade do voto entre 16 e 70 anos de idade. O cidadão que decide não votar e faz parte dessa faixa etária tem que encontrar uma justificativa para a abstenção, porque, em não fazendo isso, enfrentará problemas lá adiante, quando necessitar de um passaporte para sua viagem dos sonhos. Por exemplo.
Então é isso. O voto é obrigatório. Aliás, chamada do TSE nas emissoras de televisão tratou de salientar essa obrigatoriedade ao longo da campanha eleitoral. Ainda neste domingo, enquanto os votos se somavam nas urnas, vi esse alerta na TV. Mas achei defeito nela. Pelo jeito, a peça foi pensada por alguém não muito consciente das armadilhas em que podemos cair no uso da palavra, porque contrapôs conceitos antagônicos. Isto é, não se deu conta de que não pode confundir direito com obrigação, o que acabou fazendo ao defender o voto dessa maneira: “O voto é obrigatório”, acrescentando que “o voto é seu direito”. Como?
Pode parecer estranho, mas penso que essa forma de ver o voto deve ter um parentesco com o Brasil colônia. Por exemplo, com o “direito” do escravo no engenho de açúcar. Moer a cana ou encarar um castigo. Fosse outra a circunstância teria me empenhado em uma pesquisa para saber quando e quem definiu a lei eleitoral em vigor no Brasil. Desta vez não. A contradição contida na chamada do TSE produziu outro efeito: até ali eu estava decidida a usar meu voto como manifestação de oposição ao Marchezan Jr e ao PSDB, mas mudei de ideia. E me abstive.
Hoje, um pouco antes ou um pouco depois do meio-dia, sintonizei a TV Cultura, onde o JC Debate ouvia a opinião de um advogado e de um cientista político sobre os resultados deste domingo e sobre o quanto mostram a necessidade de uma reforma na lei eleitoral. Mas, enquanto os dois focaram seus discursos na miséria de recursos da última campanha – um deles chegou a dizer que a situação havia “traumatizado” partidos – , na BandNews, Boechat defendia o fim do voto obrigatório. Claro que concordo com ele.
Por quê? Explico: entendo que, neste domingo, o voto em branco, o nulo e a abstenção deixaram clara a desaprovação da maioria dos eleitores de Porto Alegre aos dois candidatos em disputa. É o que mostra o quadro acima. Quem somou mais votos foi a oposição a Marchezan Jr e a Melo. Por rejeição a um e rejeição a outro. A rejeição é um tipo de voto e deveria ser validada pela lei eleitoral, que é mais que hipócrita. É antidemocrática, repetindo em cada eleição o papel do dono do engenho lá no Brasil colônia.
Enquanto o voto for obrigatório, o TSE comete contradição ao defini-lo como “direito” do cidadão. Ele será um direito quando não for obrigatório. Então, sim, fará sentido não validar a abstenção e o voto no resultado da eleição.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s