Crítica bem feita à desumanização

Não tenho formação – nem pretensão – para exercer a crítica de teatro. Gosto de boas montagens. Mas aí a pergunta: do que é feita, na minha avaliação amadorística, uma boa montagem? A resposta para essa pergunta combina tema; texto que desenvolve esse tema; e um cenário apropriado. Só isso? Claro que não. Tudo isso nada é se quem interpreta e se movimenta diante dos meus olhos não me coloca dentro de uma realidade. Quero dizer: para mim, teatro bom é aquele em que predomina a naturalidade com que o ator se mete no papel, assumindo o personagem como se tivesse nascido com ele.
Já vi disso. Lá na metade da década de 1970 localizo a montagem de Mockinpott, de Peter Weiss, quando apresentada no Teatro de Arena sob direção do espanhol José Luiz Gomez. O desempenho me convenceu tanto, que saí da sala em prantos. Depois disso vi outras montagens, algumas muito interessantes. Outras nem tanto. E ontem vi O Método Arbeuq, em que cinco candidatos a um emprego na empresa Acilbuper (República) se digladiam e se eliminam mutuamente cumprindo ordens que lhes vêm através de meios eletrônicos. O cenário é econômico e, por isso mesmo, muito coerente com a dureza do processo de seleção, que é cruel e abre espaço, inclusive, para um olhar nada complacente sobre a mulher no mercado de trabalho. Aliás, nada complacente também entre as mulheres quando elas se veem como concorrentes.

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Criação da argentina Viviane Juguero, O Método Arbeuq tem como alvo a desumanização a que estamos sujeitos em determinadas situações. O texto apresentado em curta temporada no Teatro Renascença não é o original. É uma adaptação feita durante os ensaios para esta montagem, explica a atriz Juliana Barros. Ela está no elenco como Ana e ressalta: “Fizemos várias alterações, mas o resultado não muda, ou muda quase nada do texto original”.
Na plateia, uma risada aqui, outra ali. Normal diante de um texto tão crítico? Talvez não para quem foi ao Renascença esperando encontrar lá uma encenação marcada pela sisudez. E muito normal – bem calculado – para quem vê na interpretação histriônica uma forma até mais cáustica de condenar um processo em que o humano que há em nós cede lugar ao canibalismo, devolvendo-nos à caverna. No caso, o método de seleção a que os cinco candidatos a um cargo na Acilbuper se sujeitam.
Saí chorando do Teatro Renascença? Não. Saí de lá quase furiosa. Comigo mesma, porque a peça me levou de volta a uma situação em que me vi faz pouco tempo. Foram os dois piores anos da minha vida e, ao longo deles, sobrevivi tentando encontrar um jeito de escapar de uma máquina verdadeiramente moedora, metáfora para o comportamento de duas mediocridades – um homem e uma mulher – cuja competição reverberava na minha rotina no local de trabalho, invadindo também o meu direito ao repouso em casa. Hoje sou grata a quem abriu a porta e me devolveu à liberdade.
Pois é, a peça no Renascença não me levou às lágrimas, mas não fiquei incólume. Portanto, foi convincente. Também para quem se manifestou com risos nervosos, penso. Sempre no limite da minha avaliação amadorística, acredito que esse efeito espelho deve ser computado, principalmente, à atuação dos atores, que se equilibram sobre um fio quando usam o histrionismo como recurso, vestindo o personagem e, ao mesmo tempo, oferecendo-o à plateia como vítima do sistema e algoz do seu concorrente. Um jogo difícil, em que não se percebe a mão de um diretor. É minha única ressalva como espectadora. A encenação me parece mais uma criação coletiva de Elison Couto, Álvaro Rosacosta, Carol Martins, Renato Santa Catarina e Juliana Barros. As apresentações de O Método no Renascença terminaram. Quem não viu na temporada de agora não deve perder a próxima oportunidade.

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