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Estava casada fazia um ano. Um dia, quando abriu a porta da casa, deu de cara com um desconhecido. Boa tarde, disse. Naquela época ainda não havia esse medo que as pessoas sentem hoje da violência que se espraia pelo País como um polvo. Então ela ouviu um rosário de atribulações. Em casa, o visitante inesperado tinha cinco filhos e uma companheira que estava à espera de mais um. Faltava comida. “Rico”, foi com esse nome que Henrique se apresentou, queria esmola.
O som da conversa atraiu a atenção do marido de Mathilda e ele também veio até a porta. Era daquele tipo de gente que, na falta de alguém que segurasse seu ímpeto, entregaria sua última camisa a quem lhe chorasse as pitangas. Segurá-lo competia a ela, que era filha de um empresário e tinha outra visão da solidariedade. Não é que o infortúnio de “Rico” a deixasse insensível, mas o que se perguntou é como ficaria a situação dele depois que tivesse consumido a ajuda que poderia lhe dar naquele momento. Então resolveu fazer uma proposta. Afinal, a gravidez do primeiro filho já lhe pesava e…
Ele aceitaria se lhe pedisse uma ajuda na horta e no jardim? Claro. Como não? O acordo que então firmaram nunca perdeu validade. Em compensação, “Rico” parou de esmolar os trocados com que até então alimentava a família, os filhos dele foram à escola, cresceram saudáveis e os netos não viram o pai saindo de casa para mendigar o pão de cada dia.
Mathilda é minha mãe.

x.x.x.x.

Continuo revendo a cena, 33 anos depois: antes de colocar o pé no primeiro degrau, no topo da escada que leva ao pátio do hospital, me virei. E lá estava, na outra ponta do longo corredor, uma linda figura feminina, fragilizada pela doença. Minha mãe se despedia de mim com um aceno. E um sorriso. Esta é a última imagem que guardo dela, congelada na minha memória afetiva.
Era março de 1984. Oito dias depois desse aceno e oito meses depois de meu pai, Mathilda transpôs o limite da condição humana e embarcou nessa viagem que é definitiva, pelo menos no que se refere ao aqui e agora de cada um de nós. Nunca visitei seu túmulo. Nunca lhe levei flores ao cemitério.
Indiferença? Esquecimento? Não. O que sei é que, embora seu nome esteja na lápide, ela não está lá. Para mim, minha mãe continua no jardim que plantou em volta da casa, reservando um gramado para o futebol de meus irmãos e cometendo ousadias como replantar uma árvore pela terceira vez, com sucesso. Nesse jardim ela acarinhou meu filho Diego. E nesse jardim ela continua muito viva. Mesmo agora, quando outras mãos – as mãos de minha cunhada Vera – cuidam dele com muito carinho, aqui e ali acrescentando ou tirando algum tipo de planta, mas certamente sempre com a aprovação dela.
É para onde vou quando quero reencontrá-la. Então, enquanto os outros sentam em roda e conversam, busco a sombra do arvoredo, para evitar que a mistura de vozes se interponha entre nós duas. Sento no balanço, converso com as flores, me acomodo sobre a grama e me sinto realmente alegre no meio da natureza. Ouço a cantoria dos grilos, dos pássaros, os latidos de Luke e de Sebastian, que posa para a foto espiando através

da folhagem ou, brincalhão, corre em volta de um limoeiro, querendo abocanhar uma borboleta arredia; sinto o vento no rosto e escuto o barulho que ele produz nas folhas das árvores.
Tive um reencontro maravilhoso com ela no domingo passado. E vi o jardim de minha mãe servindo como cenário para a felicidade de Bárbara, bisneta dela. Vi minha sobrinha Stefânia mimando Quico, o cãozinho que minha irmã recolheu quando ele agonizava na beira do mar em Capão da Canoa e agora corre pelo gramado, apesar de não ter uma das patas. Ela foi amputada para que pudesse sobreviver.
Na verdade, Mathilda é onipresente. Está na forma como preparo a massa de pão. Durante a noite, depois de um dia atribulado, acordo sentindo o toque de sua mão no meu cabelo, ou no meu rosto. Então volto a dormir. De manhã ela volta, num “ai, minha mãe”, diante da perspectiva de um dia cheio de trabalho. E me diz que tenho força para enfrentá-lo, como ela teve em todos os dias de sua vida. Está sempre ao meu lado. Nos temperos da comida que preparo para meu filho. Nas ruas pelas quais ando. No mais fundo do meu coração.

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