Quico renasceu

Esta é uma história de renascimento. Seu protagonista é Quico, que teve a sorte de estar no caminho de Hilde e Matilde. Elas o tiraram do abandono e tomaram providências para curar suas dores. O que ganharam em troca? Muito. Hoje, Quico corre pelo espaço verde à disposição em seu novo lar. Renasceu. Pedi a Hilde que me contasse essa história.

 

 

“Verão de 2017. Manhã do dia 31 de janeiro.

Após uma caminhada de 06 km, uma parada para tomar um banho. Estávamos, minha irmã e eu, na Praia do Arco Íris, no Litoral Norte. Enquanto tomava banho, vi um cãozinho deitado na beira do mar. Vi também quando fez um movimento de defesa frente à onda que se aproximava e deitou novamente, mas não reagiu diante da chegada de uma segunda onda. Apenas olhou fixamente para o mar. Então a água o envolveu. Mansa, e refluiu.

Vendo-o assim, a certa distância, o comportamento do cachorrinho me pareceu estranho, mas embora achasse que pertencia ao casal que se banhava ali perto, aproximei-me dele e lhe fiz um carinho. Não ficou indiferente. Reagiu virando a cabeça para o meu lado e pude notar que tinha os olhos semicerrados. Eu estava me afastando quando ele se levantou e bebeu água do mar. Então vi que estava trôpego e me reaproximei. Continuou receptivo, mas parecia muito triste, e quando tentei novamente ir embora – ainda acreditando que pertencia ao casal -, ele fez um esforço para me seguir. Não conseguiu, porque estava com uma das patas dianteiras machucada. Como abandoná-lo? Mas, também, como socorrê-lo?

Não havia possibilidade de socorro por perto. Por isso, minha irmã Matilde e eu resolvemos “dar um jeito”: compramos uma canga para usá-la como meio de transporte e, dócil, o quatro-patas se aninhou na rede improvisada.  Ao longo da caminhada sobre a areia em direção a Capão da Canoa, onde veraneamos, sentimos que o peso do animalzinho foi gradativamente se multiplicando. Fazer o quê? Tentamos transformar um vendedor ambulante em táxi. Sem sucesso. O cãozinho nos espiava por entre o pano e reagia com gemidos a qualquer movimento menos delicado. Mas todo caminho tem um ponto de chegada. E quando chegamos ao nosso, em Capão, a primeira providência foi água e comida. Depois, consulta urgente com um veterinário.

Aproximadamente às 18h do mesmo dia fomos buscá-lo na clínica. Agora já era “Jake”, nome escolhido sem unanimidade. Além disso, tinha uma tala na pata machucada, porque estava fraturada. Sedado, dormiu até o dia seguinte e, por recomendação médica, tivemos que mantê-lo no isolamento durante 15 dias, sempre na sacada do apartamento, de onde acompanhava os nossos movimentos através da porta de vidro.

Ao longo desse período, somente eu me aproximava dele, tomando todos os cuidados para evitar problemas que pudesse me transmitir: luvas e uniforme. Jake mostrou que havia aprendido hábitos de higiene e isso me obrigava a carregá-lo três vezes por dia à rua, o que ele pedia. Estava tão fraco que não tinha forças para latir, mas emitia sons querendo se comunicar, emocionando todo mundo em volta.

Seu pelo estava tomado de areia. No entanto, o banho só foi permitido após o período de isolamento. Antes disso, só podia escová-lo. Além disso, os cuidados com a alimentação foram redobrados: nos primeiros dias, a comida se baseava em carnes e legumes transformados em sopa, que lhe era dada em colheradas. A ração foi incluída aos poucos e após alguns dias, rebatizado como Quico, recuperou suas forças, mas a capacidade de latir demorou mais tempo para recuperar.

Uma vez vencida a etapa do isolamento, ele foi submetido a um Raio Xis em que foram constadas várias fraturas, e o médico veterinário concluiu que a pata teria que ser amputada. Essa era uma decisão difícil de aceitar e, claro, procuramos outros especialistas no assunto. Inclusive em Porto Alegre, onde foi confirmado o diagnóstico feito em Capão da Canoa. Quico ficou sem uma de suas patas dianteiras, mas como nos garantiu a veterinária, diferentemente do ser humano, o animal não se ressente da perda de um membro. Ele voltou a correr.

Depois do período pós-operatório, novamente em Capão da Canoa, Quico ganhou um novo lar. Hoje ele tem um grande espaço à disposição de suas peraltices. Sobre o gramado ou sobre caminhos calçados de lajes, ele corre atrás de borboletas e abelhas, entre árvores frutíferas e plantas carregadas de flores. Recebe muito carinho dos humanos em volta, mas foi muito bem acolhido também por Luke – forte, mas doce Labrador. Os dois se entendem. Com Sebastian, a relação às vezes fica tensa, porque Quico ainda precisa aceitar que ganhou um lar onde já havia um Gold Retriever ciumento e mimado como rei. Max, um valente shi-tzu, assiste a tudo isso da janela. E comemora latindo. O que em volta soa como um aplauso ao renascimento de Quico.”

 

 

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