Reflexão sobre a hipocrisia

A pena de morte existe no Japão. E ela foi cumprida mais uma vez nesta quinta-feira, em Tóquio, informa Die Zeit. Segundo informação divulgada pelo Ministério da Justiça do país, dois homens foram executados, elevando para 19 o número de enforcamentos desde que Shinzo Abe assumiu o poder em 2012. Um dos executados é Masakatsu Nishikawa, de 61 anos, que matou quatro pessoas em 1991. O outro é Koichi Sumida, de 34 anos, condenado pelo assassinato de uma colega de trabalho em 2011.
A maioria dos japoneses apoia a pena de morte, mas no ano passado a Associação de Juristas do país se pronunciou sobre o tema, pedindo que ela seja revogada até 2020. Dentro e fora do Japão, defensores dos direitos humanos criticam a pena em si e o processo que leva até a execução, afirmando que é extremamente cruel, porque alguns condenados ficam décadas na solitária. Afora isso, apenas alguns segundos antes são informados de que sua hora final chegou.
Entre os países mais industrializados do mundo, Japão e Estados Unidos são os únicos que mantém a pena de morte. A diferença é que, enquanto a justiça norte-americana permite o uso de recursos como a injeção letal e a câmara de gás, a japonesa faz uso da corda na execução. Afora essa diferença, os dois países provam que essa lei não impede o ser humano de matar outro, seja para se apoderar de um bem material que a vítima tenha; seja porque não consegue admitir o fim de um relacionamento; seja porque está envolvido em corrupção e quer se livrar de um possível delator; ou porque precisa eliminar um rival para chegar ao poder e se manter nele.
Tudo isso cabe na condição humana. Ou “demasiadamente humana”, como diria o filósofo Nietzscke. E isso nos faz mais perigosos que as feras que enjaulamos, porque onças, leões e tigres usam apenas as armas que a natureza lhes dá quando atacam. Em contrapartida, nós fabricamos armas, criamos outras, mais sofisticadas e mortais, e criamos as guerras em que são usadas. Hipocritamente em nome da paz. É o que Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, quer nos fazer crer quando anuncia uma venda milionária para a Arábia Saudita, como fez há alguns meses. Elas matam? Sim. Foram construídas para isso. Mas quem se importa com isso se, quando vendidas, geram lucro?
Se a lei fosse realmente igual para todos, a Trump e a outros iguais a ele deveria ser concedido o direito de sentirem na própria veia ou no próprio pescoço o impacto da hora final. E  se fosse igual para todos no Brasil, a justiça que absolve um político que pede o assassinato de um possível delator, como fez Aécio Neves em conversa gravada, não jogaria em uma cela a mãe que vai ao supermercado e ali rouba um pedaço de pão para matar a fome de seu filho. O problema é que, na realidade, a lei não é igual para todos no mundo, e principalmente no Brasil, porque é aplicada por uma justiça “demasiadamente humana”, com direito a ser cega quando convém.

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