Além ou abaixo da aparência temos algo em comum

Tenho um problema. Todo mundo tem um, claro. A diferença é que o meu, embora prosaico diante do que ocorre com outras pessoas, carrega um agravante. Vou contar: é um presente que gostaria de devolver e não posso. Primeiro, porque seria um gesto mal educado, mas principalmente porque recebi o pacote – de muitos fios – como herança genética do lado paterno.
A essa altura você já deduziu que estou falando de meus cabelos. Sim. Iguais aos de meu pai Stefan, eles são absurdamente lisos, não seguram um grampo e, como pluma de pássaro, não têm o menor volume. Se fossem anelados, pelo menos um pouco, poderiam me socorrer depois de uma noite mal dormida. Em vez disso, acentuam o ar de cansaço.
Este texto terminaria aqui se o tivesse escrito há dois meses e seria apenas um desabafo, mas ele ganhou fôlego para comemorar um alívio e, mais que isso, uma descoberta de ordem prática e reveladora no sentido da humanidade que povoa o planeta Terra. O que mudou e o motivo da mudança deslocaram o ponto final para depois de mais alguns parágrafos e neles cabe a confirmação de algo em que já acreditava, como adepta do darwinismo: brancos, amarelos ou negros – não interessa a cor da pele – todos temos algo em comum. De alguma forma somos todos aparentados.
E chega de “nariz de cera”, ouviria de um editor de páginas na redação de algum jornal. Portanto, vou ao ponto: faz alguns meses tomei o rumo de um shopping. Queria espairecer, tomar um cafezinho e dar uma olhada nas vitrines, além de comprar mais um desses xampus que prometem “volume”. Foi quando a vendedora de uma loja de cosméticos, depois de ouvir minha ladainha de queixas, me surpreendeu: ela me recomendou o uso de um produto fabricado para o cabelo afro. “Vai resolver seu problema”, garantiu.
Como assim? A explicação que ouvi então faz o maior sentido e pude comprovar isso na primeira chuveirada: a química usada para abrir os cachos das consumidoras de origem africana e dar movimento ao cabelo delas também funciona para abrir os fios extremamente lisos, como os meus, e lhes dar volume. Maravilha! Agora posso dizer que eu tinha um problema, mas o que realmente quero salientar nesse texto é o quanto o preconceito racial, que deu origem a maldades como a venda de humanos negros nascidos na África para o trabalho escravo, é inútil e produto da ignorância.
E viva a química! No xampu que a vendedora da grife Boticário me recomendou ela prova que asiáticos, europeus, índios latino-americanos ou africanos são, essencialmente, seres humanos. Não interessa a cor da pele, se os olhos são pequenos ou grandes; se o nariz é comprido e fino ou largo e achatado; se a cor da pele é negra, amarela ou branca. O que interessa é que, além ou abaixo da aparência, temos algo em comum uns com os outros e isso nos torna irmãos que nascem e vivem em culturas e países diferentes, mesmo quando entre nós há toda a água dos oceanos que separam os continentes. Somos humanos. Pensamos, sonhamos, amamos, sofremos e choramos.

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