Em Goiás, um cenário para aventureiros

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152Há quase duas semanas ando pelas ruas de Porto Alegre recriando roteiros e, ao mesmo tempo, sentindo saudade dos caminhos do interior de Goiás que percorri em agosto. Na Chapada dos Veadeiros, a cerca de 220 km de Brasília, meus pés avançaram – acusando desconforto – sobre paus e pedras de trilhas absolutamente íngremes, empurrados pelo estoque de força de vontade que carrego comigo. Valeu o esforço?

202“Foram tantas emoções”, diria Roberto Carlos. Por motivos que não os dele, digo a mesma coisa sobre essa viagem que, ao longo de apenas dois dias – sábado e domingo -, foi da curiosidade à falta de ar diante da beleza natural construída ao longo de bilhões de anos. E, agora, o rastro que essas emoções deixaram me impõe esse tom que, embora pessoal, ainda assim ficará distante da profundidade com que as senti. Repetiria a dose? Sim. E quanto às dificuldades fora da zona de conforto? De passo em passo elas vão ficando para trás, disse a meu filho, Diego. Além disso, lá adiante a recompensa está garantida, ouvi dele, que adora esse contato estreito com a natureza.

x.x.x.x.x.

053A Chapada dos Veadeiros se localiza no pico do Planalto Central brasileiro, a 1700 metros de altitude diz uma fonte. Outra afirma que são 1676 metros acima do nível do mar. Mas não vou me deter na diferença. Esse tipo de informação o amante de aventuras encontra na internet; com mais detalhes no livro Berço das Águas do Novo Milênio, de Miguel von Behr, e também na obra História do Homem e da Terra no Planalto Central, do historiador Paulo Bertram.027

Fazem parte da Chapada dos Veadeiros o Parque Nacional criado por Juscelino Kubitschek em 1961 e hoje com 65.515 mil hectares de extensão; e, fora desse parque, mais de 120 cachoeiras. A maioria delas fica na área do município Alto Paraíso de Goiás, declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Além disso, ele funciona como imã, atraindo grupos místicos e esotéricos para os quais a região oferece um “novo modelo de vida e paradigma para o homem do novo milênio”, segundo conta Miguel von Behr em seu livro.

Isso explica alguns aspectos que saltam aos 114olhos dos visitantes. Entre eles, a estrutura que, na entrada da cidade, lembra uma nave espacial. Outra: casas, templos e santuários construídos em forma de pirâmide com um cristal no topo remetendo ao tempo do garimpo em Vila São Jorge, onde o gerente da pousada Águas de Março lembra, com uma nota de orgulho, que “aqui já trabalharam mais de 4 mil garimpeiros”. Uma terceira característica é a profusão de centros de terapia holística. O traço de união entre todos eles talvez seja a crença em que o Planalto Central do Brasil se construiu com a contribuição de extraterrestres.117

Geologicamente, a região é a mais antiga da América do Sul – de 570 milhões a 4,7 bilhões de anos – e “já era um continente quando o resto do mundo ainda estava submerso nos oceanos (Behr)”. Também historiador, Ignazio Schmitz afirma que 9 mil anos antes de Cristo o Planalto Central já era habitado por humanos e, como prova disso, cita os desenhos rupestres encontrados em abrigos rochosos. Seja como for, o fato é que a Chapada dos Veadeiros chama gente de tudo quanto é lado do planeta.

Um exemplo disso? Em Alto Paraíso de Goiás, o dono do restaurante La Vitta è Bella é italiano. E anche Fabrizio, o chef que tem o segredo de uma massa muito saborosa. Di dove? Di Brescia, responde. Pela janela ouço, mesmo sem querer, a conversa entre uma professora e um turista alemão. A atendente conta que uma comunidade de norte-americanos está em plena formação e já tem cerca de 40 famílias que passam metade do ano em Alto Paraíso e a outra metade nos Estados Unidos. No restaurante Tapindaré vejo a mãe correndo atrás da filha. Pede calma e ralha em francês. Em algum momento, as três línguas – e outras – acabam competindo com o rumor das águas nas cachoeiras.

Simples por escolha

108A “porta de entrada” é Vila São Jorge, extremamente receptiva e simples. As ruas ainda são de terra batida, o que significa muita poeira em épocas como agora, quando as nuvens de chuva chegam e se afastam ligeirinhas, deixando para trás alguns pingos que o calor consome num piscar de olhos.

Segundo o dono do Campanella – nome da flor que enfeita a lateral da fachada do restaurante -, a verba para o calçamento já foi aprovada, e os moradores reclamam do atraso no começo da obra. Mas ele faz uma ressalva: “Não queremos asfalto; queremos que a prefeitura use um tipo de pedra que, com um desenho apropriado, deixe a água fluir para dentro da terra”. Essa preferência, além de mostrar preocupação com o meio ambiente, confirma uma primeira impressão: a simplicidade da vila é uma escolha para agradar ao tipo de turista que busca contato com a natureza, mesmo que isso lhe exija aceitar alguns desconfortos.

107Os hotéis da vila têm estrutura de pousada. Como a Águas de Março, onde alguns quartos são distribuídos em desenho semelhante ao de uma ocara e a fachada funciona como galeria de arte, expondo objetos que fazem parte da história da região; nas portas desses quartos, a gerência pendurou quadros com versos da 143música de Tom Jobim; e o frigobar permanece vazio se o próprio hóspede não providencia um conteúdo. Café da manhã? Sim. Almoço e jantar? Não. Mas isso não é problema, porque o povoado oferece algumas boas opções. Entre elas, o Santo Cerrado Risoteria & Café e uma 132pizzaria capitaneada pelo chef que, entre uma e outra fornada, sobe no palco e acompanha as moçoilas no remelexo de um samba ou de qualquer outro ritmo.

Aliás, comer é o que menos faz um aventureiro na Chapada dos Veadeiros. Pelo menos durante o dia. Toma-se, isto sim, muita água. Ela não pode faltar na mochila de quem sobe e desce, às vezes engatinhando, as trilhas de acesso às cachoeiras – são mais de 120 -, porque o sol e o ar muito seco nesta época do ano formam uma combinação difícil de suportar. O caminhante sua. Muito. Sauna ao ar livre? É o que parece, embora a temperatura média anual na região não passe de 26 graus, segundo os meteorologistas. Quem olha e vê descobre aqui e acolá uma flor típica do Cerrado – como a Sempre Viva – mostrando que a vida também é uma questão de adaptação, ou de milagre, mas a sombra é raríssima, porque as árvores exibem galhos nus. E nem é preciso dizer que essa secura se reflete no ânimo.

Três roteiros em apenas um dia

Os trajetos que percorremos no primeiro dia somaram 12 quilômetros, começando pela 176trilha rumo ao Vale da Lua, onde a estrutura da recepção é mínima. Suficiente apenas para pagar o ingresso – R$ 20,00 – e anotar nome e idade. Esse cuidado certamente terá utilidade se o dono da propriedade for obrigado a tomar alguma providência de socorro. Ou outra. A partir daí até o vale, onde o formato e aparência das pedras realmente remetem à Lua – mesmo que, como no meu caso, o visitante nunca tenha estado lá e só leve a cabeça cheia de fantasias sobre as crateras lunares –, algumas virtudes se 162fazem necessárias ao astronauta sem nave: paciência, resistência e cautela, mas principalmente humildade para admitir quando as forças capengam e ele precisa, AGORA JÁ, de uma sombra ou de uma árvore – ainda que mirrada – em que possa dar um abraço, trocando energia.

158Finalmente lá. No Vale da Lua. Então o esforço feito vira deslumbramento. Mesmo que a água escorra pouca entre as pedras e forme poços apenas pequenos – insuficientes para um banho – a beleza do lugar é tamanha que o visitante silencia. Quem faz o espetáculo são as pedras. E ele é grandioso. Quem é o autor? De onde veio tudo isso? Da Lua, acreditam muitos. Trabalho longo e persistente da água, explicam os geólogos. Talvez de ambos. É lindo. É misterioso. Reverencio o artista.

180Gostaria de ficar, mas a trilha que leva às quedas de água de Almécegas também está no roteiro da manhã de sábado. O valor do ingresso é mais salgado: R$ 30,00. E lá vamos nós, novamente enfrentando paus e pedras. No meio do caminho, encontramos um personagem em aparente posição de vigília. É um cupinzeiro que alguém, bem inspirado, transformou em totem. Aliás, isso me lembra de que, afora a impressionante formação rochosa, os cupinzeiros são presença constante nas grandes extensões de terra ao longo das rodovias. E chamam a atenção.

191Almécegas é imponente. Embora a água agora não tenha o volume próprio dos meses de chuva, ainda assim é generosa e forma um poço em que pessoas podem nadar enquanto outras lagarteiam sobre as pedras. Tem mais: no alto do paredão tem gente em torno de várias piscinas naturais. É para lá que aponta o menino loirinho enquanto se queixa: “Papi, Ich habe Hunger” (Papai, eu tenho fome). Rápido, o pai pega a mochila, abre o pote que tira dela e alimenta o filho a colheradas. “Du auch?” (tu também?), pergunta à filha. Não, ela só quer trocar a roupa molhada por outra, seca. E ele faz o que a menina pede. A 196mãe? Está na água com uma amiga. E também o marido dessa amiga cuida de suas crianças. Quando todos se reúnem a tagarelice toma conta descrevendo sensações e impressões. Por volta de uma da tarde o grupo familiar deixa o cenário da cachoeira e, subindo a trilha, os pais levam os filhos menores nos ombros. Bonito de ver.

Mas o dia ainda não terminou. Na 209Cachoeira das Loquinhas – também a R$ 20,00 o ingresso – uma família de micos curiosos acompanha a parte inicial da nossa caminhada em direção às várias quedas de água, onde há uma predominância da tranquilidade. O ambiente é propício para casais apaixonados, para alguém contemplativo e para a mulher que, na terceira idade, se diverte com o netinho na “cachoeira da vovó”. A própria trilha antecipa esse clima, porque é confortável se comparada com as demais. Nela, em grande 215parte o visitante segue por um caminho em que paus e pedras foram cobertos por ripas de madeira, formando extensões planas e escadarias.

Mesmo assim o corpo reclama. É hora de voltar à pousada na Vila São Jorge para tomar um banho, jantar e descansar. O dia seguinte vai exigir mais uma dose de muita energia, antecipa a jornalista norte-americana Anna Edgerton, que conhece nosso próximo objetivo e me conta que a “Raizama é dramática”. E, por isso, é sua preferida entre as cachoeiras que já visitou no Planalto Central.

Logo na chegada noto uma diferença em relação às demais: a recepção é muito gentil. José, o administrador, conta que vamos percorrer 1.150 metros na ida e outros 1.150 na volta. Total: 2.300 metros.014 Mais tarde, completada a façanha, ele ri malicioso quando sugiro uma revisão nessas medidas, “porque a distância vencida parece bem maior”. E abana a cabeça, conta que acaba de visitar a queda de água Pajé, mas admite que o caminho de retorno talvez precise de uma reavaliação.

Ouvindo a conversa, Ilê apenas sorri. Índio da tribo Terere, “que vive na fronteira da 017Bolívia com o Brasil”, ele vende seu artesanato – “tudo fabricado por mim” – atrás do palco em que João, filho de José, promove seus espetáculos dedicados ao rock para públicos vindos de todos os cantos do país e até de fora. A troca de ideias vai indo bem, mas é interrompida por Diego, que anuncia a chegada de um “lagarto” à procura de comida.

020Não, explica Ilê. “Este é um 023camaleão do Cerrado”. O artesão observa as reações do “remanescente de dinossauro” que, segundo conta, é muito arisco e costuma fugir rapidamente ao menor sinal do que possa interpretar como ameaça. Pelo jeito não é o caso agora, porque o camaleão fica ali, comendo e posando para a máquina fotográfica. Só depois vai embora, sempre calmo, e nos presenteia com um amplo bocejo antes de sumir no meio das pedras.

006003Mas a Raizama é mesmo tão “dramática”? Sim, Anna tem razão. No entanto, vi drama também no acesso em que o visitante se vê entre precipício e rocha; subindo e descendo escadas em que os degraus são absolutamente inseguros. O risco de escorregar exige permanente atenção – José nos alertou sobre isso -, porque um pé em falso pode ter consequências sérias. E sem possibilidade de socorro imediato.

Aliás, o socorro é difícil em qualquer uma das trilhas percorridas. Inclusive na última desse programa de final de semana, na Cachoeira dos Cristais. Ali, o preço de entrada é de apenas R$ 10,00, embora a estrutura seja bem maior que nas demais, incluindo camping, bar para lanches rápidos e espaço para o que se pode definir como piquenique. Afora isso, a trilha começa na primeira queda de água e vai descendo. No caminho estão: a Da Paz, a Paraíso e outras. A última e mais importante é a Véu de Noiva.

Fácil? Muito. Como diz o 047provérbio, “para baixo todo santo ajuda”. Duro é voltar ao topo. Lá pelas tantas, sem uma árvore ou um arbusto que pudesse abraçar, o único jeito de seguir adiante foi engatinhar. Fiz exatamente isso. E vi outros fazendo.028

Valeu a pena tanto esforço? Tanto, que estou me preparando para a próxima aventura em Goiás. Mas agora já sei que as distâncias nem sempre são aquelas que vemos ou gostaríamos de percorrer para chegar a nossos objetivos. São aquelas que percebemos quando metemos os pés na água e eles não encontram o fundo.

Pelas ruas e avenidas do Brasil

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Estão em toda parte, ao longo dos caminhos que percorro em Porto Alegre, aonde a noite chega mais cedo e mais fria no inverno, usurpando pedaços do dia.  Estão pelas calçadas em número cada vez maior. Estendendo a mão. Pedindo.

15 de julho de 2015. Na Rua Santa Cecília, meus pensamentos são interrompidos. Ela se aproxima e me conta seu drama. Fome. Fala quase sussurrando. Mais parece uma confidência. Envergonhada? Acho que sim. Então lhe dou uma ajuda também de forma absolutamente discreta e sigo meu caminho.

Meia hora depois, vejo quando um homem se mistura aos que esperam pelo ônibus da linha Jardim Ipê na parada em frente ao Bourbon Ipiranga. Nada discreto. Pelo contrário. Ele anuncia aos quatro ventos que já não aguenta tanta fome. “Meu estômago dói”, diz, a mão nele para reforçar a queixa e despertar compaixão de quem está em volta. Não duvido, porque sei, por experiência própria, que o frio aguça essa sensação. Entrego-lhe o valor da passagem, ouço um “obrigado” e tomo o rumo de minha casa. Um passo depois do outro.

Novamente na Rua Santa Cecília, mais um encontro. Dessa vez quando estou à espera de uma chance para atravessar a via pública, um pouco preocupada porque a noite já está alargando as sombras debaixo do arvoredo e a luz providenciada pela CEEE é quase nenhuma. Aliás, como de hábito. Então o jovem se aproxima. Vem correndo, com os braços abertos. Mostrei medo? Acredito que sim, porque ele anuncia: “Pode ficar tranquila; não quero lhe fazer mal; só preciso de um troco para o leite do meu menino, que não come nada desde a manhã; ele está com fome”. Meto a mão no bolso do casaco. Como não, depois de ver os olhos da criança?

E retomo o caminho para casa. Leve, em paz comigo, embora consciente de que essas ajudas são soluções apenas momentâneas. Matam a fome do estômago, mas não alcançam o que deveria ser resolvido neste Brasil: a raiz dos problemas. Um deles, a paternidade sem-noção, porque simplesmente acontece, como resultado de uma urgência, principalmente do homem. Ele descuida da precaução que deveria tomar, mas não toma, porque vê a gravidez como fenômeno unicamente feminino, como se a terra – metáfora muito usada para definir a mulher – pudesse produzir sem que nela fosse plantada a semente.

27 de julho de 2015 – Paciente, espero que o sinal abra para os pedestres na esquina da Fernandes Vieira, onde acabo de fazer algumas compras no supermercado. Então alguém me cutuca o ombro. A jovem suplica que lhe compre “pacote de fraldas, lá, naquela farmácia”. Lê dúvida na minha reação, levanta a blusa para mostrar a barriga crescida e explica: ”Fui estrupada”.  Não me deixa ir. Segue atrás de mim até a farmácia, onde já é conhecida e sabe o preço de todos os tipos de fralda. Pede as “mais baratas”.

3 de agosto de 2015. Estou com pressa e tomo um taxi. Logo no começo do trajeto, o motorista me diz que “também vendo panos de prato; é minha mulher quem faz”. Fala e mostra o produto. “três por dez”, acrescenta. Os panos são bonitos. O preço é bom. Mas, caramba! Sinto-me assaltada.

Alceu Valença vai autografar na Feira do Livro de 2015

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A voracidade do tempo já consumiu quase metade do ano. E assim, a passos largos, a cidade vai se aproximando de mais uma Feira do Livro de Porto Alegre. Na Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL), os preparativos para torná-la mais uma vez acessível e atraente aos leitores na Praça da Alfândega – também além dela – estão a mil.

A programação se encontra em processo de construção; portanto, ainda não pode ser liberada para a divulgação, informa Jussara Rodrigues, responsável pela área adulta da Feira do Livro. Mas a curiosidade leva à descoberta de boas notícias. E, entre elas, uma certamente agradará – e muito – aos fãs do compositor/cantor pernambucano Alceu Valença.20150417201244675002e Alceu Valença, foto de Yanê Montenegro

Jussara confirma a vinda dele. Valença estará em Porto Alegre no primeiro dia de novembro para autografar o livro O Poeta da Madrugada (Editora Chiado) e para conversar com seus leitores. A obra reúne poemas que ele compôs ao longo de várias décadas, de 1967 a 2014, a maior parte deles em Lisboa. O prefácio é do angolano José Eduardo Agualusa.

Embolada do tempo é um dos poemas: “O tempo em si/ Não tem fim, não tem começo/ Mesmo virado ao avesso não se pode mensurar”. Se Alceu Valença teme os efeitos da celeridade das horas, dos dias, das semanas, dos meses e anos?  Não. “Caminho todos os dias, não fumo, não bebo, nunca usei drogas. Envelhecer não me amedronta. O que me amedronta é a burrice, a ignorância, a crescente diluição da identidade brasileira, o retrocesso político com jovens incautos pedindo a volta da ditadura, o período mais tenebroso de nossa história. Mas, felizmente, a poesia sempre salva”, diz.

Em contrapartida a essa boa notícia, a edição da Feira do Livro deste ano será menos internacional, porque não terá a presença de autores de um país convidado. Segundo informações extraoficiais, a CRL tomou essa decisão com base em uma constatação. A de que, da maneira como vinha ocorrendo, a participação de um país homenageado não contribuía muito com os objetivos da Feira do Livro, pois a Câmara acabava assumindo uma série de gastos, e os resultados não eram os melhores. Essa percepção, segundo ouvi, ficou mais nítida no ano passado, quando os autores trazidos do Canadá não tinham obras publicadas no Brasil e eram praticamente desconhecidos entre os leitores.

Com a natureza como cenário

A Feira do Livro tem, tradicionalmente, mais um foco de grande importância e agito. É a Área Infantil e Juvenil, de estímulo à formação de leitores. E ela já está com a “programação completamente fechada”, conta Sônia Zanchetta, que coordena o setor. Alguma mudança em relação ao que os visitantes encontraram no ano passado?

Sim. Em 2015, a Feira voltará a estreitar seus laços com o rio, pois ocupará parte da área central do Cais, onde “vamos instalar um teatro – rebatizado como Carlos Urbim – para 600 pessoas”, conta Sônia. Ela acrescenta que o palco ficará à beira do Guaíba e terá fundo retrátil para que, em concertos e algumas atividades, o cenário seja a própria natureza. “O fundo será fechado com uma cortina preta, e a plateia estará acomodada sob o telhado do pórtico central”.

Tudo a ver com o tema central da Área Infantil e Juvenil “Alice no País das Maravilhas”, marcando também em Porto Alegre os 150 anos que a primeira edição do livro completa em 2015. Um detalhe interessante: o autor, Lewis Carroll, pseudônimo do tímido Charles Lutwidge Dodgson. Em sala de aula, o reverendo entediava seus alunos de Matemática, mas como escritor conseguiu entregar-se à fantasia em que, no entanto, não abriu mão do pensamento lógico, presente no interesse da menina por jogos e enigmas.

Mas a programação da Área Infantil e Juvenil não se resume ao tempo em que os livros estão na Praça da Alfândega. Ela começa bem antes, visando à preparação dos pequenos leitores para o encontro com os autores e suas obras. Nos dias 2 e 3 de julho, as escolas que participarão do programa de leituras Adote um escritor escolheram 128 autores, em esforço conjunto de professores, bibliotecários e outros mediadores de leitura, da Smed (Secretaria Municipal da Educação) e da Seduc (Secretaria do Estado da Educação). Outro quadro da área é o Autor no palco. Sônia Zanchetta cita alguns: Heloisa Prieto, a mineira Stella Maris Rezende, o paulista Pedro Bandeira, João Anzanello Carrascoza, o ilustrador Ivan Zigg e Kátia Canton.

A paulistana Heloisa Prieto é autora de mais de 40 livros. Ela prega o estímulo à leitura nas crianças mesmo antes da alfabetização, sempre com total liberdade para que escolham. “É um equívoco o adulto querer nortear a leitura infantil, decidir o que é bom e o que é ruim. Outra coisa importante é o livro-brinquedo. Ele educa o olhar, a atenção. Em casa, é importante respeitar as “leis do leitor”: ler o que quiser, amar ou detestar um livro, ler o mesmo título um monte de vezes, começar pelo meio, não terminar, ler o fim antes…”

A escolha do patrono

E quem será o patrono em 2015? Em agosto, a Câmara vai coordenar a escolha. Na primeira etapa, como de costume, empresas associadas, patronos de edições anteriores e ex-presidentes da entidade indicarão cinco nomes. A segunda parte ampliará o número de votantes, incluindo representantes da comunidade cultural e parceiros especiais da Feira.

A tendência é que o escritor viajante Airton Ortiz passe o bastão a um de seus quatro concorrentes em 2014 – Maria Carpi, Celso Gutfreind, Cíntia Moscovich e Aldyr Schlee –, mas eles terão que disputar a honraria com quem vai entrar na corrida agora. Pode ser Vera Teixeira de Aguiar, professora da Pucrs e muito reconhecida por seu trabalho de estímulo à leitura com ênfase nas crianças. A artista plástica e escritora Paula Mastroberti criou uma fanpage no Facebook para sua professora de pós-graduação e salienta que Vera tem contribuído com a Área Infantil e Juvenil da Feira do Livro.  Entre os livros que a professora já publicou estão: Ler e brincar: o dado mágico (Edipucrs, 2009); e Poesia fora da estante para crianças (Projeto / L&PM, 2003). O nome do eleito será anunciado em setembro.

A água deve ser privatizada?

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No Facebook está rolando a inconformidade de gente em relação a declarações feitas pelo empresário austríaco Peter Brabeck-Letmathe, presidente da Nestlé desde 2005. Ele defende a privatização da água. A propósito disso, lembrei de uma entrevista que encontrei no jornal alemão Die Zeit (versão online) sobre o mesmo tema. Resolvi traduzi-la e reproduzi-la neste espaço.

“A água precisa de um preço”

Empresas privadas podem ajudar a abastecer o mundo de água, diz o especialista Denis Schmidli. Mas como é possível conciliar interesses econômicos com responsabilidade? Reportagem de Alexandra Endres.016

PSenhor Schmidli, por que investidores devem investir em água?

Denis Schmidli: A água é um recurso escasso. Já agora mais de 800 milhões de pessoas, mundo afora, não têm qualquer acesso à água potável. Na verdade, podem ser até mais, porque a população cresce. Em 2050, o planeta Terra terá 9 bilhões de habitantes, segundo projeções; hoje são 7 bilhões. Um número cada vez maior de regiões sofre os reflexos da falta de água. Sem água não se pode sobreviver, é o primeiro passo para que se possa ter uma vida digna.

PEmpresários ativos no setor da água querem, antes de tudo, fazer negócios. Por que deveriam se interessar pelo bem-estar dos pobres?

Schmidli: A indústria da água dá sua contribuição para reduzir o problema de escassez. Concordo quando se diz que o recurso é seguidamente politizado. É preciso defender o direito básico e fundamental de todo ser humano à água. Mas para que isso seja possível necessitamos de uma rede de abastecimento, necessitamos de tecnologia – os estados não conseguem, sozinhos, providenciar essa infraestrutura. Quem fornece a tecnologia é o empresário. Muitas empresas têm peso na bolsa de valores, onde se oferece a possibilidade de investir nelas. O investidor lucra, seu dinheiro produz algo de bom, no fim também os consumidores são beneficiados. Esta é uma clássica Win-Win-Situation (situação em que todo mundo ganha).

PPara isso é absolutamente necessário privatizar o abastecimento público da água?

Schmidli: Não é totalmente necessário. Mas em alguns países o Estado não tem a menor condição financeira para fazer os investimentos. Na China, por exemplo: lá é preciso instalar infraestrutura em povoados onde a rede de abastecimento nunca chegou, e alguns desses povoados crescem muito rapidamente. A mão pública não pode arcar com esse benefício nessas dimensões, mas empresas especializadas, com Know-how adequado, podem contribuir tanto como fornecedoras de tecnologia quanto como especialistas em abastecimento.

PUm argumento que o senhor usa para chamar investidores diz:  “O preço da água sobe mais que a inflação”. De que forma isso serve ao direito que os pobres têm à água?

Schmidli: A água precise de um preço. Só quando isso acontecer a humanidade vai lidar de forma sensata com esse recurso. Eu não consigo imaginar que os preços cheguem a um patamar impagável. Na China,para ficar no mesmo exemplo, a instalação da rede de abastecimento custa significativamente menos que na Alemanha, mesmo quando feita em nível igual de dificuldade. Estados têm seu próprio interesse em evitar o surgimento de conflitos por causa da água. Empresas só operam onde seus interesses comerciais são viáveis. E os consumidores se retraem quando os preços sobem demais.

PIsso já aconteceu. Na Bolívia, investidores internacionais deixaram Cochabamba depois de protestos. Também em La Paz moradores protestaram contra um consórcio com participação do Suez, do qual participa o Pictet-Wasserfonds. Como lida com conflitos desse tipo?

Schmidli: Nós asseguramos o ambiente político, regulatório e operativo em que uma firma atua no nosso processo de investimento. As empresas são testadas de acordo com critérios que analisam sua capacidade de concorrência em diversos setores, entre os quais, sua saúde financeira, seu interesse na ecologia e o ambiente de trabalho que oferece a seus empregados. É que, em longo prazo, um não funciona sem o outro. Examinamos os interesses de todos os grupos que serão influenciados pela atividade empresarial. Desdobramentos políticos também desempenham um papel.

PNo momento, quais são os desenvolvimentos mais importantes no mercado da água?

Schmidli: Países em crescimento ganham cada vez mais importância. Á China declarou a água recurso fundamental do século XXI. Naquele imenso país, a água é escassa, mas sem água não há desenvolvimento. Por isso o país precisa investir no abastecimento de água, em técnicas modernas. Isso leva a uma tecnologia de transferência, através da qual as empresas chinesas poderão crescer novamente. Para nós, isso abre as portas para novas possibilidades de investimentos.

Outro impulso para o desenvolvimento é o abastecimento industrial. Um número crescente de empresas delega as instalações da rede de água a especialistas. Um fato é que, desde 1900, o consumo de água pelas indústrias cresceu muito mais que o privado.

O terceiro impulso: a via pública vai tentar transferir tarefas a um custo menor, através de licitações. O abastecimento de água permite isso. Atores privados podem, em muitos casos, se organizar de forma mais eficiente. Esse tema vai ganhar importância nos próximos anos.

PPortanto, os investimentos de maior peso são possíveis em países em desenvolvimento ou industrializados. O que vai acontecer com os pobres? O senhor disse que empresas privadas podem transformar o direito desses países à água em realidade.

Schmidli: As condições do cenário precisam favorecer os investimentos. Um país instável, que é corrupto ou inseguro, assusta os investidores. Este é o grande problema. E não é bonito. Mas os próprios países precisam mudar isso. As empresas não podem impor nenhuma segurança para investimentos.

 

 

A melhor arma da liberdade

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O patrono autografa no dia 6 de novembro, a partir das 18hortiz 10649579_943177169029282_685019266483657204_n

 

“Finalmente”, Airton Ortiz! O advérbio usado pelo presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, Marco Cena, quando anunciou o patrono da 60ª Feira do Livro, faz muito sentido. Afinal, combinação de romancista, jornalista e viajante que divide com os leitores as aventuras radicais que protagoniza mundo afora, Ortiz acarinhou estoicamente a expectativa dessa honraria em nove edições anteriores.

E agora? Pensou em algum jeito especial para marcar esse momento? A resposta vem sem pestanejar: “Como sempre fiz, estarei na Feira do Livro todos os dias”. É verdade. Desde 1975, Ortiz só faltou à edição de 2013, mas tinha uma boa justificativa. Longe do Brasil por um ano, estava preparando seu 17º livro – Paris, uma reunião de crônicas – que vai lançar agora, enquanto patrono.

“Bueno”. Essa foi a sua primeira palavra em fala rápida antes do anúncio de seu nome como patrono. E ela o recolocou no cenário de uma palestra em Caçapava, onde um ouvinte ressaltou que havia gostado “principalmente do bueno”. Seguiu nesse tom. Contou que sua persistência na espera pela honraria teve o incentivo até do porteiro do prédio onde mora. “Não desiste”, ouvia dele.

Recordou Tempo de Solidão. Foi seu primeiro livro, uma seleção de poesias, de 1975. Naquela época, a liberdade de expressão estava amordaçada no Brasil, “mas combatíamos a ditadura com poemas que vendíamos nos bares, substituindo o fuzil”. Um detalhe: quem pagava a impressão das poesias eram os autores. Depois criou a Cooperativa dos Escritores. E quando o governo do então presidente Geisel editou um “pacote ordenando o fechamento do Congresso”, a cooperativa lançou o livro também chamado Pacote.

A Editora Tchê foi um longo capítulo na vida de Airton Ortiz. Ficou no ar durante 15 anos, lançou cerca de mil títulos e “causou um boom do livro gaúcho”. Hoje, “gosto de pensar que sem a Tchê os brasileiros não teriam lido cinco milhões de livros”.

Nas mais de 50 palestras que realiza por ano – e como patrono de 15 feiras no interior -, ele insiste em que “ler não é um dever; é um direito”. Básico. Agora leva essa bandeira à Feira do Livro de Porto Alegre. Com uma certeza: “O livro é a maior e melhor arma que temos na luta pela liberdade”, porque “dissemina ideias”.

Como afirmou em entrevista coletiva no auditório Museu de Direitos Humanos do Mercosul, Ortiz acredita que, ao contrário do que muitos imaginam, “são as ideias, não as armas, que fazem revoluções”. Como exemplo disso, o patrono citou a Revolução Francesa em que Humanidade, Fraternidade e Liberdade foram “ideias que transformaram rebeldes em revolucionários”. Por isso a Feira do Livro é, na visão dele, uma “praça de batalha não armada”, como foi a proposta de Ghandi, que pregou a resistência passiva – sem armas – pela independência da Índia do jugo britânico na metade do século passado.

P O próximo livro já está em andamento? Sobre o quê?

Airton Ortiz – O próximo livro seria um romance que se passaria na África, contando a exploração do marfim, mas a região está sob epidemia do vírus ebola. Então estou pensando em escrever um novo volume da coleção Aventuras pelo Mundo, sobre cidades. No caso, Nova York.

 PO que lhe custam, física e emocionalmente, as aventuras radicais?

Airton Ortiz – Preciso estar saudável e ter um bom preparo corporal, além de algumas habilidades especiais para sobreviver na natureza selvagem. Emocionalmente é mais complicado. Ainda temos muito pouco domínio sobre o nosso lado emocional e isso pode nos levar ao descontrole diante de algumas adversidades, não apenas físicas, mas também emocionais e psicológicas.

P Já esteve em 80 países. Para quantos deles voltaria a qualquer momento e por quê?

Airton Ortiz – Os três países mais interessantes que já visitei são a Tanzânia (pela natureza selvagem, em especial os grandes animais, como os chamados “Big Five” – leão, elefante, girafa, rinoceronte, hipopótamo – encontrados em todo lugar, pois um terço do país é formado por parques nacionais); o Nepal, por causa das belezas naturais. A fronteira sul do país está no nível do mar (floresta tropical) e a fronteira norte tem a cordilheira do Himalaia, com os pontos mais altos da Terra. Entre esses dois extremos, distantes apenas 200 km um do outro, temos todos os ecossistemas existentes no planeta, incluindo flora e fauna; e a Índia, país com a maior diversidade cultural do mundo. E eu considero a diversidade o que de mais importante a humanidade já construiu.

PDá para conciliar todas as diferenças? O teu “bueno” nunca se espanta ou se recolhe?

Airton Ortiz – O que se deve fazer é respeitar as diferenças, pois elas são o que temos de melhor. O diferente nos completa, mas desde que continue diferente. O meu “bueno” se espanta, sim. Por exemplo, diante do “oxente” nordestino, do “Ok” cosmopolita, ou do “namastê” indiano; e espanta também. Isso é muito bom, pois marca o que temos de melhor: a capacidade e o direito de sermos únicos. E sempre que surge um ditador, a primeira coisa que ele faz é unificar tudo, inclusive o pensamento. Lembra como o Getúlio aboliu as bandeiras estaduais e a ditadura militar criou a Globo?

Título: Quem é Airton Ortiz

A família era humilde. Assim, o menino nascido em Rio Pardo, no dia 27 de novembro de 1954, calçou seu primeiro par de sapatos somente aos 10 anos de idade. Mas já sabia da existência de um mundo imenso e rico além de sua paisagem cotidiana, porque ouvia a rádio Guaíba. Influenciado por ela decidiu que seria jornalista. Estava com 14 anos.

Depois também virou empresário. Mas tomou uma decisão revolucionária quando voltava de uma viagem ao México: aposentar a rotina e abdicar do conforto para se aventurar em viagens radicais. Desde então foi ao Tibete, ao Kilimanjaro e a outros lugares em que mortais comuns não ousam colocar seus pés. Desde então escreveu 17 livros. E, em dois deles, revela mais uma face: a de romancista.

Sobre suas aventuras radicais ele diz: “Já me perguntaram se é difícil escalar uma montanha, mas o difícil mesmo é chegar à conclusão de que escalar aquela montanha é importante pra ti. Tem que ter CHA: Conhecimento, Habilidade e Atitude, ou seja, tem que se conhecer em primeiro lugar, tem que possuir habilidades e, o mais importante, é necessário que se tenha atitude para colocar tudo isso em prática. Sem atitude somos simples mortais e não iremos a lugar nenhum”.

Título: Obras de Airton Ortiz  –1999 – Aventura no topo da África; 2000 – Na Estrada do Everest; 2001 – Pelos caminhos do Tibete; 2002 – Cruzando a Última Fronteira; 2003 – Expresso para a Índia; 2004 – Travessia da Amazônia; 2005 – Egito dos faraós; 2006 – Na trilha da Humanidade; 2007 – Em busca do Mundo Maia; 2008 – Cartas do Everest; 2009 – Vietnã pós-guerra; e Retratos da Terra; 2010 – Aqui dentro há um longe imenso; e Havana; 2011- Jerusalém; 2012 – Gringo; 2013 – Atenas; e Foi o que coube na mochila; 2014 – Paris.          

Ortiz, um Patrono solidário

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Peço desculpas aos outros patronáveis, mas fiquei especialmente feliz com a escolha de Airton Ortiz para Patrono desta Feira do Livro. Explico: em 2006, quando me encontrava em uma situação para a qual achava difícil solução ele me socorreu. Naquele ano, Ortiz me ajudou a encontrar uma banca para expor o livro Mente Criativa – a aventura do cérebro bem nutrido, do médico ortomolecular Juarez Nunes Callegaro

Trabalhei para o doutor como gost writer e ele preferiu publicá-lo de forma independente, isto é, sem editora. Lembro que na abertura da Feira do Livro daquele ano fui até a Praça da Alfândega mal podendo carregar o peso de uma mala cheia de exemplares desse livro. Estava lá, no estande do Jornal do Comércio em reunião de pauta com minha equipe, mas pensando também sobre o meu problema – os contatos que havia feito até então haviam dado em nada, porque o livro era independente – quando Ortiz chegou. Conversamos um pouco, expliquei minha situação, ele olhou o livro e me disse “espera aqui”. Voltou nem 10 minutos depois, com uma boa notícia.

Meu problema estava resolvido. O livro vendeu muito bem, Esgotou rapidamente e novas edições foram feitas, mas agora com editora. Já falei da minha gratidão ao Ortiz, mas achei que deveria compartilhá-la com meus amigos. Nunca vou esquecer o gesto solidário dele, que me tirou de uma sinuca de bico. Ele é, tenho prova disso, uma pessoa generosa, além de jornalista, escritor e amante de aventuras radicais que já o levaram ao pico do Everest e a outras paisagens do planeta.

William Waack passa do ponto

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Um vexame. Eu vi. E o protagonista foi o jornalista William Waack. No programa GloboNews Painel da edição de  9 de agosto, sábado, ele pisoteou a ética profissional com vontade. Passou do ponto, literalmente. E o que deveria ser uma entrevista sobre a situação econômica do Brasil – estamos caminhando para uma recessão? – virou espaço usado por ele para acusar o governo de “intolerante diante das críticas”. Fez isso repetidamente. E fez pior: recomendou cuidado aos economistas convidados – Luiz Gonzaga Belluzzo, da Facamp; Gesner Oliveira, da Go Associados; e Nelson Marconi, da FGV –, dizendo que uma opinião contrária ao discurso do Planalto poderia representar “perigo” aos três.  Queria intimidá-los? Parecia que sim.painelO comportamento de Waack nesse programa contrariou tudo o que aprendemos como sendo correto quando, na prática jornalística, a tarefa é entrevistar alguém. Gesner Oliveira recebeu a primeira pergunta. E sua resposta – “longa” – foi interrompida pelo apresentador, sob pretexto de passar a palavra a Belluzzo. Antes disso, porém, ele deu início ao que chamo de jogo sujo, contrabandeando para dentro da entrevista a denúncia sobre a alteração feita no perfil de Miriam Leitão e Sardenberg no Wikipédia a partir de computadores instalados no Palácio do Planalto.

Dali em diante atropelou o bom senso. Deixou claro que tem a culpa do governo nesse episódio como questão fechada, desconsiderando um fato importante: o equipamento usado para alterar os dois perfis fica numa sala de trânsito intenso, à qual muita gente tem acesso. É assim? Então, já que estamos em clima de desconfiança, qualquer um dos que frequentam a dita sala pode ser apontado como réu. Não é? Quem pode garantir que não foi alguém da própria Rede Globo quem planejou matar dois coelhos com uma cajadada, atingindo os colegas e, ao mesmo tempo, dando uma mãozinha a Eduardo Campos e Aécio Neves? Por isso mesmo essa história deveria ser muito bem investigada.

Aos que assistem o GloboNews Painel não passa despercebido – não tem como não notar – a frequência com que Waack alardeia sua vasta experiência, inclusive como correspondente em outros países, entre os quais a Alemanha. Mas no meio dessa gente há os que ouvem, pensam sobre o que ouvem e não perdoam leviandades como a que ele cometeu na edição de sábado, quando misturou alhos com bugalhos e jogou a ética profissional no lixo. E esses telespectadores não se deixam enganar assim tão facilmente.

Primeiro, porque raciocinam: a turma que está no poder e quer continuar lá seria tão simplória em sua estratégia de campanha eleitoral? O que ganharia com isso? Ganha quem lhes joga a culpa sobre os ombros. Além disso, telespectadores atentos percebem a maldade no tom de voz, mesmo quando quem fala usa a palavra como se estivesse aconselhando. Por isso, não lhes escapou no sábado que, ao recomendar cuidado aos convidados do programa, William Waack tinha outro alvo. Usando a vitrine da Rede Globo, pretendia que sua mensagem assustasse o eleitor. É ele quem deve sentir-se em “perigo” diante da intolerância do governo às críticas. Porém, o apresentador está mais uma vez superestimando sua capacidade de influenciar corações e mentes, pois quem decide a eleição é outro público, bem mais numeroso, que não vê o GloboNews Painel.

Ainda assim, o que William Waack fez na edição do programa de sábado passado ultrapassou os limites da malandragem. Foi sujeira. Da grossa. E foi também um atestado de superficialidade. Coisa de narcisista, que notaria a existência de gente bem melhor que ele se tirasse os olhos do próprio umbigo. Bem perto dele, aliás. Renata Lo Prete, por exemplo.  Wack deveria pedir à colega que lhe desse umas aulas.

Tempo desperdiçado na TV

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O senador Aécio Neves abriu a série de entrevistas na Globo News com os candidatos à presidência do País. Se a estratégia que usou é uma amostra do que veremos ao longo da campanha eleitoral, não teremos debate de ideias. Teremos guerra. Quando o programa terminou, a imagem que me ficou do tucano é a de um pretendente que corre o risco de perder a noiva, porque a obsessão em demolir o rival no coração e mente do povo votante, de quem busca consentimento para o casório, rouba dele o tempo que deveria usar para esmiuçar sua própria proposta de governo.

É perigoso subestimar esse povo. Grande parte dele, graças à política social executada ao longo dos últimos anos, saiu da pobreza e hoje faz parte da classe média. Esse povo desconfia de quem só atira pedra na vidraça do rival, mas nada de concreto oferece como alternativa.  Ele desconfia de quem se mostra tão empreendedor na arte da fuga quando chamado para dizer como irá garantir a saúde – em todos os aspectos – da enorme família que terá sob sua responsabilidade se for vitorioso nas urnas em outubro, ou em novembro (se houver segundo turno).  E a desconfiança só aumenta na medida em que o discurso expõe a contradição.

É desse mal que a estratégia de Aécio Neves sofre. A incoerência ficou evidente na entrevista a Renata Lo Prete, editora de Política da Globo News. Logo de saída, na resposta ao primeiro questionamento, ele foi absolutamente evasivo. Fiquei à espera de uma reação da jornalista; que ela tomasse as rédeas do programa e repetisse a pergunta: “O senhor critica o número de pastas do atual governo e afirma que vai reduzi-lo. Quais pastas serão extintas”? Afinal, jornalismo se faz com lógica, sim, mas também com uma boa dose de psicologia. Meu raciocínio: se um candidato à presidência do País aponta exagero na administração em andamento e o considera grave desperdício de dinheiro público deve saber onde o abuso acontece. Então deve saber também o que deverá cortar se assumir o cargo.

Mas foi somente no segundo segmento da entrevista que a jornalista adotou uma postura mais incisiva. Transformou as acusações de Aécio Neves ao PT em tiro no pé, fazendo uso delas para expor contradições: apoiou a criação do Solidariedade, mas condena o que considera excesso de partidos no Brasil; acusa Dilma de solapar o setor energético, mas absolve Fernando Henrique Cardoso de responsabilidade no apagão ocorrido durante o governo dele;  afirma que, no seu primeiro dia no governo,  vai criar uma secretaria para simplificar o sistema tributário, mas condena o excesso de ministérios no governo Dilma; e o mensalão é pecado do PT, mas o escândalo dos trens – o trensalão – no governo do PSDB em São Paulo não pode ser computado ao partido. Quando sentiu a mudança do clima, o tucano apelou ao clássico “me deixa falar”.

A jornalista deixou. E ele continuou dizendo o equivalente a nada já que o foco da entrevista era a sua proposta de governo.  A única pergunta que Aécio Neves, homologado candidato no sábado, respondeu sem tergiversar foi esta: “Sua candidatura à presidência é uma questão circunstancial ou de destino”? E, claro, ele se acredita predestinado. Com a bênção de Tancredo Neves. Mas, para ombrear com o avô na política, ele precisa ainda vencer inimigos na própria trincheira. Falta-lhe consistência. Falta-lhe um projeto. Por enquanto é refém do PT e Dilma. Essa é a leitura que o programa me possibilitou.

Meu mundo e o Eu

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cerebro (1)O cérebro humano é composto por um litro e meio de água, clara de ovo e gordura. Como essa massa pode gerenciar toda a nossa existência? Diante dessa pergunta levam um susto – e recuam – até mesmo os pensadores mais otimistas. O neurocientista norte-americano Christof Koch assegura, no entanto, que o enigma da consciência é decifrável.

Autor do livro The Quest for Consciousness: A Neurobiological Approach, Christof Koch nasceu em Kansas City, nos Estados Unidos, filho de um diplomata alemão. Estudou em Tübingen, na Alemanha, e há dois anos dirige o Allen Institute for Brain Science, em Seattle, onde pesquisa o cérebro. Paul Allen, o fundador da Microsoft, investe meio bilhão de dólares nesse estudo.

Stefan Klein, também neurocientista, conversou com Christof Koch em Nova Iorque, sentados à mesa de um restaurante, diante de um prato de salada. A troca de ideias rendeu matéria publicada no jornal Die Zeit.

P: Podemos conversar e, ao mesmo tempo, saborear uma comida de forma consciente?

Christof Koch: Provavelmente não. Estar consciente, normalmente, significa estar atento, prestar atenção em algo. E, em regra, só podemos estar atentos a uma coisa por vez. Todo o resto altera a nossa atenção. Quando prestamos atenção a uma boa conversa, percebemos menos o sabor da comida.

P: Portanto, a atenção funciona como um filtro. O que é a consciência?

As pesquisas do neurocientista Christof Koch também colhem informações fora do laboratório

As pesquisas do neurocientista Christof Koch também colhem informações fora do laboratório

Koch: Sua percepção interior. O senhor sente o sabor do sal sobre a folha de alface, no momento seguinte vê uma imagem do meu rosto. Ao mesmo tempo precisa dar atenção às suas impressões sensoriais. Mas apenas isso não é suficiente, pois a aceitação do fato produz apenas sinais físicos: as moléculas sobre a sua língua, as ondas de luz que seus olhos alcançam. Mas o senhor tem percepções – um sabor, uma imagem na cabeça. E isso é algo completamente diferente. Essa vivência se origina em algum lugar do cérebro. Como acontece ainda é um grande mistério.

PPara a maioria das pessoas isso parece que é a coisa mais natural do mundo.

Koch: Mas o peixe reflete sobre a água enquanto nada? A verdade é que só notamos a consciência quando ela desaparece. Normalmente, somente um sono profundo, narcose ou sérias perturbações mentais depois de um acidente vascular nos fazem ver que a consciência não pertence obrigatoriamente a nossa vida.

P O senhor estuda este assunto há quase 30 anos. O que o levou a ele como neurocientista?

Koch: Estar consciente é a antecâmara para quase todos os outros conhecimentos. Como posso comprovar que o universo existe? E como posso saber que existo? Só quando vivencio ambos. Estar consciente é a única realidade sobre a qual podemos estar certos. Descartes já reconhecia isso.

P“Cogito ergo sum” escreveu Descartes. Traduzindo: “Penso, logo sou.” Em todo caso nunca entendi por que tudo recai sobre o pensar. A mim parece que é mais fundamental que eu perceba: estou aqui.

Koch: Acredito que Descartes se refere a exatamente essa percepção. Posso imaginar qualquer coisa – por exemplo, que uma mulher inacreditavelmente atraente me ama – e estar totalmente errado. Mas sobre minhas experiências internas não posso me enganar. Hoje Descartes, provavelmente, diria: “Estou consciente, portanto, sou”. A consciência do ser é a propriedade básica do universo no qual vivo.

 P: O senhor um dia falou de “meu incontrolável desejo de acreditar que a vida tem um sentido”. E essa vontade o levou à busca dos conhecimentos antigos.

Koch: Eu fui um católico crente. Meus pais me educaram dentro da religião, fui coroinha e as aulas na escola jesuítica aquietaram minha busca por um sentido. Mas como físico, no laboratório, descobri outro mundo. Aqui a ciência esclarece os fatos; lá a criação se fazia por obra de Deus. Eu vivia em uma verdade dividida – uma realidade para os dias da semana, uma para os domingos, quando ia à missa. Mas um dia encontrei Francis Crick …

Biólogo Francis Crick

Biólogo Francis Crick

P: … biólogo molecular e neurocientista britânico que, em 1953, com James Watson, descobriu a estrutura da molécula de DNA. Em ele ganhou o Nobel por “suas descobertas sobre a estrutura molecular dos ácidos nucleicos e seu significado para a transferência de informação em material vivo”.

Koch: Depois que esclareceu esse mistério, ele se interessou pela consciência. Nós começamos, na década de 1980, um trabalho conjunto. Hoje, pensando sobre isso, acredito que fui levado a isso pelo meu desejo secreto de ter a certeza de que a ciência falhou na pergunta sobre a consciência.

P: .. quis falhar.

Koch: Sim. Assim poderia mostrar por que precisamos da religião: para esclarecer como se originou a consciência no mundo. Aqui Deus entra no jogo. Mas com o tempo cheguei à conclusão de que a consciência pode ser esclarecida de maneira totalmente natural: com neurônios, teoria da informação e por aí afora. Não se precisa de religião.

P: Crick sempre pensou dessa forma. Em 1961 ele renunciou a seu posto no Churchill College da Universidade de Cambridge, quando quiseram construir uma capela no campus. Crick queria libertar o mundo de sua crença em Deus. O ateu convicto e o católico em dúvida: vocês dois devem ter formado uma dupla interessante. Sua fé foi assunto entre os dois?

Koch: Não. Francis era um homem bom e quis me deixar em paz com minhas dúvidas. E eu não estava emocionalmente maduro para abrir mão da minha religião. Mas ele me ensinou como se pode levar uma vida boa, cheia de sentido e correta sem acreditar na figura de um pai no céu ou em uma vida após a morte. E eu o admiro por isso, a forma estoica como lidou com seu envelhecimento e mortalidade. Morreu em 2004, de câncer intestinal. Com seu comportamento provavelmente me possibilitou resolver a questão da fé religiosa.

P: Portanto, o senhor foi prisioneiro de suas angústias sobre a fé durante mais de duas décadas.

cristianismo1Koch: Porque precisei de um tempo para percorrer esse caminho. Ao mesmo tempo, ansiava muito por um sinal de Deus. No começo de meu trabalho com Crick dirigi na costa leste dos Estados Unidos um curso de verão sobre computadores na pesquisa do cérebro. Fizemos uma festa no litoral, uma banda tocava e eu estava bastante embriagado – e inquieto. Há pouco tinha lido em A Gaia Ciência, de Nietzsche, a passagem do livro em que ele nos define como coveiros de Deus. Por volta da meia-noite fui sozinho até a beira do mar. O céu estava nublado e havia temporal no ar, refletindo como me sentia. Comecei a chamar por Deus, em alemão: “Mein Gott, wo bist du?(Meu Deus, onde estás?”) Subitamente uma luz me cegou e uma voz me respondeu.

P: O que o senhor ouviu?

Koch: “Que diabo, vai para o inferno! Desaparece da beira do mar”! Deus se mostrou a mim como lutador raivoso! Eu não tinha visto esse homem, que pretendia dormir na areia. De qualquer maneira corri dali, tão rapidamente quanto pude, de volta à festa. Aos poucos, os dogmas da Igreja foram perdendo importância para mim. Mas continuei com a cabeça ocupada em entender por que a ideia de uma alma não poderia harmonizar com uma ciência do conhecimento, da consciência.

P: A crença em uma alma parece que é, para as religiões, mais essencial do que a crença em um ser superior. As fantasias em torno da alma e da imortalidade desempenham um papel em praticamente todos os sistemas de fé. Em contraposição, existem religiões importantes sem Deus – por exemplo, o budismo.

Koch: Na primavera passada passei uma semana com Dalai Lama na Índia. Conversamos sobre o estado de consciência. Ele acredita em reencarnação, mas nós, os cientistas, não. De resto achei que muitas das ideias dele se aproximam das nossas – certamente também porque o budismo não conhece um Deus criador de tudo. Mas o senhor tem razão quando diz que a pergunta sobre consciência e alma é mais central que Deus também para as religiões. Isso acontece porque observamos nossa própria consciência e queremos uma explicação para isso.

P: De toda maneira, a religião oferece respostas muito mais fáceis que a ciência. O cérebro é incrivelmente complexo.

Koch: Oh sim. Apenas no tamanho de um grão de arroz há quase um milhão de células nervosas, ligadas entre elas por bilhões de conexões e sinapses. Se essa fina cadeia fosse desenrolada na massa cerebral chegaria a 20 quilômetros! E não há somente um ou dois tipos de neurônios nesse grão de arroz, mas cem tipos diferentes. Ainda não sabemos o número exato. Cada vez que avançamos um passo no que já sabemos sobre o cérebro notamos que ele é ainda mais complexo do que se imaginava até então. Mas também a essa complexidade devemos a consciência.

P: E, mesmo que o senhor tivesse examinado o cérebro em seus mínimos detalhes, o problema ainda estaria longe de ser resolvido. Então ainda não se tem como esclarecer a percepção individual. O microscópio e nenhum aparelho medidor podem mostrá-la. Para entender como vivenciamos um fato, o único jeito é que cada um de nós olhe para dentro de si mesmo. Mas como descobrir se o café tem para mim exatamente o mesmo gosto que tem para o senhor?

Koch: Posso me aproximar da sua experiência, mas nunca poderei alcançá-la por completo. De qualquer maneira, nossos cérebros funcionam de forma muito parecida. Não fosse assim, não seria possível que um romance ou uma ópera pudesse emocionar milhões de pessoas. A ópera Tristão e Isolda, composta por Richard Wagner há mais de 100 anos, ainda nos comove porque todos nós nos já estivemos apaixonados. E hoje temos novas possibilida6des para pesquisar processos internos, podendo identificar modelos de atividades no cérebro.

P: Isso quer dizer?

Koch: Meu laboratório trabalha há mais de dez anos com neurocirurgiões que, às vezes, implantam eletrodos no cérebro de epiléticos para diminuir a frequência dos ataques. Enquanto os eletrodos estão na cabeça dessas pessoas, podemos fazer experiências com elas. Por exemplo, nós lhes mostramos imagens e vemos como os neurônios conectados reagem. Muitas vezes são fotos de atores de cinema. Certa vez tivemos uma mulher que trabalhava nos estúdios e conhecia Jennifer Aniston pessoalmente. Sempre lhe mostramos uma imagem da estrela era o mesmo neurônio que reagia. Surpreendentemente ele só respondia a Aniston, a nenhum outro ator e a nenhuma outra loira. Em outros cérebros encontramos um neurônio que só respondia a Halle Berry ou a Clinton.

P: Isso sinalizou algum tipo específico de experiência?

Koch: Essa paciente dizia: “Oh sim, eu vejo Jennifer Aniston nitidamente.” E o neurônio reagiu não somente a imagens, mas também quando a legenda era “Aniston”. Ou quando alguém lia o nome dela. A célula cinzenta, portanto, não tinha um código do rosto, mas algo como o “conceito Jennifer Aniston”. Assim, temos claramente grupos de neurônios especializados para tudo e com quem temos familiaridade – células cinzentas para nossos parceiros, filhos, animais domésticos, o carro e também proeminentes.

P: O espírito domina a matéria.

Koch: Eu diria que uma parte do cérebro dirige a outra. Quando peço aos pacientes que nos próximos 10 minutos pensem em Marilyn Monroe, essa orientação é armazenada na memória curta, localizada na testa. Todas as células cinzentas nesse local têm influência sobre neurônios profundos, que estão a serviço das lembranças guardadas na memória de longo tempo. Coisa parecida acontece quando reprimo meu impulso de, agora, comer mais uma sobremesa. Uma parte de meu cérebro quer satisfazer essa vontade imediatamente, mas outro sistema calcula as consequências em longo prazo para a minha saúde e me impede de pegar mais um doce. Esse tipo de função exercem também as regiões atrás da testa. Com determinadas técnicas de meditação podemos treinar esse controle mental.

P: A gente aprende, através disso, a se controlar sempre mais.

Koch afirma que a escalada de uma rocha equivale à concentração que se atinge na meditação

Koch afirma que a escalada de uma rocha equivale à concentração que se atinge na meditação

Koch: O que impressiona é quanto se pode alcançar com esse tipo de práticas. A maioria das pessoas pensa e age seguindo seus impulsos. Sentem fome, então comem; uma preocupação lhes vem à mente, então se deixam levar pelo vento. Quem costuma meditar pode se libertar dessas influências. Pessoas muito treinadas na meditação conseguem, inclusive, libertar-se da dor e dos motivos dela. Não interessa de onde sopre o vento, o barco segue seu curso. Pode ocupar-se de um assunto durante horas. Infelizmente, essa maravilhosa capacidade tem um preço: precisamos treiná-la durante muitos anos.

P: Como acontece com tudo que a gente quer realmente dominar.

Koch: Sim, é uma habilidade extrema. Aqueles que a alcançaram contam com alegria: “Oh, você a pratica seis minutos, todos os dias, durante vinte anos. Então vai conseguir”.

P: O senhor tentou?

Koch: Sim. Mas então me perguntava se queria mesmo dedicar metade da minha vigília a isso, sentado em posição de lótus e meditando sobre o nada. Poderei descansar quando estiver morto. Prefiro fazer experiências. Assim, resolvi tomar outro caminho.

P: Participa de maratona no Death Valley e escala montanhas bastante íngremes.

Koch: Tudo isso tem muita semelhança com a meditação: precisamos estar extremamente concentrados no que fazemos. Então o Eu- a consciência de si mesmo, essa crítica interna que sempre nos acompanha – desaparece. Quando corremos horas através de montanhas quase entramos numa zona em que não há tempo. O Ego desaparece. Isso traz felicidade. Psicólogos chamam isso de Flow.

P: Nesses momentos, a consciência é tomada por uma percepção muito forte: estou aqui. Existo. E a vida interior fica simples.

Koch: A gente sente a presença do próprio corpo no entorno, no que nos cerca. Quando escalamos, a vida externa se torna muito evidente, muito presente. Vemos a menor falha no granito. A posição do sol fica muito clara, sabemos a exata posição dos ganchos e onde está o último apoio de segurança.

P: O que torna impossível o estado de consciência no computador?

Koch: Em princípio nada. Talvez um dia possamos reproduzir nossos pensamentos e sentimentos em uma máquina. Se isso acontecer, então poderemos transferir todas as informações diretamente do cérebro para o computador. Nossa personalidade se tornará imortal. Lamentavelmente não estarei aqui para vivenciar esse dia.

Tempo e circunstâncias

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O ex-chanceler da Alemanha Helmut Schmidt voltou a Moscou. Diz ele que em turnê de despedida. Mas o homem é duro na queda. Quase centenário, faz pouco dos malefícios atribuídos ao cigarro e fuma como um condenado, acendendo o próximo no que sobrou do que está pitando. Contam que Ludwig Van Beethoven pediu “mais luz” quando se despedia do mundo. Helmut Schmidt deixa imaginar que pedirá “mais um cigarro”.

helmut-schmidt-540x304Em Moscou, ele teve uma longa conversa com Vladimir Putin, por quem foi recebido no Kremlin. Entre uma baforada e outra, o assunto entre os dois era a política mundial. Havia um belo arranjo de flores sobre a mesa. Se o aroma delas impregnava a sala? Não sei. A notícia publicada no jornal Die Zeit não entra neste pormenor.  Então o que me chegou é que, apesar da beleza delas, a situação ficou um pouco desconfortável para o anfitrião, que se viu obrigado a defender os colegas europeus diante das críticas de Schmidt aos líderes da União Europeia. Entre uma pausa e outra – às vezes desconcertante, como se vê em programas da Deutsche Welle -, Schmidt costuma dizer o que pensa. Do jeito que é. Certeiro no alvo.

“O Parlamento Europeu e a Comissão Europeia não trabalham muito bem”, disse o ex-chanceler a Putin. Depois, acrescentou que “os governos nacionais também deixam a desejar”. Aos 94 anos de idade, Helmut Schmidt acredita na existência de uma “crise das instituições” e que depois da Segunda Guerra Mundial ninguém se igualou em influência ao britânico Winston Churchill e ao francês Charles de Gaulle na política europeia. “A qualidade dos estados europeus e dos chefes de governo só foi minguando”, lamentou o representante do SPD.

schmidt 268026897E Putin? Aos 61 anos de idade, nada lhe restou afora sair em defesa de seus colegas. “A situação da economia mundial está difícil”, argumentou, porque grandes reivindicações e necessidades sociais dificultaram a solução da crise. E, provavelmente aproveitando o tempo dedicado por Schmidt a mais uma baforada, dessas que deixam o interlocutor mergulhado em uma nuvem de fumaça, o presidente russo fez um agrado ao visitante. Louvou-o como “patriarca, não somente dos países europeus, mas também da política mundial”. E ainda lhe sobrou ânimo para agradecer ao ex-chanceler por “sua forte contribuição ao desenvolvimento das relações amigáveis entre russos e alemães”, depois do estrago feito pelo nazismo, que abriu as portas para a ocupação de um pedaço da Alemanha pela União Soviética.

O ex-chanceler não diz o que pensa pela metade. Talvez a idade em que está lhe facilite isso, mas é verdade que ganhou respeito também com seu trabalho político. Em 2008 pude vê-lo e ouvi-lo no Teatro de Leipzig, onde ele participava da entrega de um prêmio. Anthony Hopkins também estava lá, como especialmente convidado.  Bem naquele momento, verão na Europa, o lixo tomava conta de Nápoles, cidade italiana, por causa de uma confusão armada pela Máfia. Helmut Schmidt usou aquele imbróglio todo para chamar a atenção sobre um fato geográfico que, segundo ele, aumenta a responsabilidade dos alemães na Europa: “A Alemanha é o país com o maior número de vizinhos no continente e isso nos pede que sejamos organizados e limpos na casa, no corpo e na mente. Não temos o direito de poluir o ambiente e o ar, seja com ideias ou com o lixo de qualquer tipo; se o fizermos estaremos afetando a qualidade de vida dos que nos cercam”.

Tenho verdadeira admiração por Helmut Schmidt. Mas seu discurso nem sempre harmoniza com o que faz. Quando, por exemplo, transforma as pessoas que o cercam em fumantes passivos. Nesses momentos ele fica tal e qual os políticos que a gente conhece em terras brasileiras, aqueles que amanhã, se estiverem no poder, cometerão os mesmíssimos erros que hoje condenam naqueles que estão no comando.  É tudo uma questão de circunstâncias. E de tempos. Helmut Schmidt teria dito a Kruschew o que disse a Putin? Kruschew teria sido tão tolerante quanto Putin? É a política…