As alianças têm preço

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Hoje terminei a leitura do livro Numero Zero, em que o escritor italiano Umberto Eco tem como tema um projeto de jornal pensado para manipular a informação em prol de interesses particulares e escusos. O resultado deveria intimidar gente influente. O interessante é que, depois de um passeio pelos arquivos – não oficiais – da história italiana, o jornalista Braggadocio é encontrado morto e a criação do jornal é suspensa. Quem o encomendou está com medo.Capa do livro Umberto Eco

Braggadocio teria sido morto por descobrir uma aliança, incluindo a Igreja Católica, de proteção a Mussolini no final da Segunda Guerra Mundial. O Duce não teria sido morto, mas escondido no Vaticano e, depois, levado à Argentina. No final da história, o autor traz o leitor à América do Sul – Copacabana, por exemplo. “Tesoro, cercheremo un paese dove non ci siano segreti e tutto si svolga ala luce del sole …sono paesi  senza misteri”. Por que não? Como em programa apresentado pela BBC sobre a trama de proteção a Mussolini, também nestes países o criminoso vira delator que fala como se esperasse uma medalha.

Fechei o livro e fiz um passeio pelo meu próprio arquivo. E lá topei com um texto que publiquei no Jornal do Comércio quando lá coordenava a Editoria de Cultura e recupero neste blog, com pequenas adaptações ao momento. O que via então na política brasileira já me incomodava, mas de lá para cá a situação só piorou. O PT de Lula fez alianças que não deveria ter feito. Pagou o preço para chegar ao poder e continuar nele. Alto demais, como se vê agora.

O inço e a grama

No final do ano em que Lula foi eleito para a presidência do País, eu estava fazendo um curso no sul da Alemanha. O loiro Brian, aluno de uma das tantas faculdades de Economia que existem nos Estados Unidos, era um dos meus colegas. Assim que fomos apresentados em sala de aula, a primeira observação que ele me fez foi esta: “Meus professores dizem que o governo brasileiro joga dinheiro pela janela”.

No governo estava Fernando Henrique Cardoso e uma das coisas que me desagrada nele é que sua péssima dicção, como se levasse uma batata quente na boca, me desconcentra. Não consigo ouvi-lo até o fim. Apesar disso, o norte-americano mexeu com meus brios patrióticos e tive vontade de jogá-lo sobre o campo coberto pela neve, através da janela. Em vez disso, respirei fundo. E me controlei. Jurei aos meus botões que lhe daria uma resposta bem pensada quando o tema fosse a prontidão do país dele, armado até os dentes, para ocupar territórios alheios. Mas, antes disso, Lula tomou posse. E Brian fez uma segunda observação. “Vai apanhar muito”, disse. Dessa vez concordei com ele.

Só não imaginei, naquele momento, que Lula se deixaria consumir tanto por uma oposição que continua varrendo os próprios pecados para debaixo do tapete, como Geraldo Alckmin fez em São Paulo no caso Nossa Caixa. Mas também é verdade que Lula não estava somente – como Dilma agora – no prato dos contrários. Dentro do próprio Partido dos Trabalhadores e do governo há gente se comportando como inimigo. Ângela Guadagnin, por exemplo. Por mais que se possa entender a atitude dela diante da absolvição de um colega como de absoluta coerência com o clima de pobreza intelectual e de espírito em que a Câmara dos Deputados está mergulhada, ainda assim seu bailado foi um estupor. A reação dela às críticas que recebeu então – “me perseguem porque sou gorda e não pinto os cabelos” – é ridícula. A essa altura, estou curiosa sobre os critérios usados na filiação.

Nunca tive partido. Já votei em Collares. Já votei em Simon. E votei em Lula. Se não tivesse votado nele, teria ficado sem candidato, porque sei demais sobre os que estão na oposição para acreditar que pensam na felicidade geral da Nação. Sei tanto, que não votaria, em hipótese alguma, em qualquer um deles. Sei das CPIs que já conseguiram e ainda conseguem impedir. Portanto, sei que deturpam a verdade quando pretendem jogar no colo de Lula a corrupção que hoje denunciam com tanto alarde, como se fosse criação dele espraiada por Dilma. Mas trago na memória um dos tantos conselhos de meu pai diante do gramado que havia em torno de nossa casa. Ele dizia: “O inço tem que ser tirado delicadamente, com uma faca, para não matar a grama”.

Há muito inço na política brasileira? Há. Então vamos tirá-lo sem destruir o gramado. Há muita erva daninha no governo? Há. Então vamos acabar com ela, mas sem negar o que há de bom nele. Oposição cega, que nega medidas positivas como o pagamento da dívida com o FMI e a importância do investimento que o governo faz em tecnologia quando apoiou, por exemplo, a viagem espacial de Pontes, é burrice. Mais do que de uma oposição maquiavélica, o Brasil precisa de uma oposição inteligente, que arranca o inço respeitando a grama.

Levante contra Francisco

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nergoglio e seu boné 7a0173ad75O papa Francisco mexeu num abelheiro. Entornou o caldo e causa revolta entre cardeais e arcebispos. Suas decisões mais recentes aos católicos, principalmente a que facilita o processo de anulação do casamento, estão desagradando entre os prelados. Eles o acusam de quebrar um importante dogma da Igreja, conta hoje no jornal Die Zeit o jornalista Julius Müller-Meiningen.

A paciência dos mais conservadores chegou ao limite. Estão, como se diz em linguagem bem popular, de saco cheio com esse papa e pretendem lhe dar um basta dentro de três semanas – dia 4 de outubro -, quando arcebispos católicos do mundo todo se reunirão em Sínodo no Vaticano para analisar os rumos da Igreja. O encontro será realizado em clima de guerra, já declarada: nas antessalas das cúrias circula um dossiê apresentando a lista dos pecados atribuídos a Francisco. “A máscara de Francisco caiu”, diz um alto prelado. E muitos, embora sob a proteção do anonimato, compartilham ideias agressivas contra o pontífice.

A gota que faltava para desencadear o conflito – na verdade, oposição organizada contra Francisco – é a permissão que ele deu aos católicos para uma rápida anulação do casamento, que a Igreja até aqui tratou como indissolúvel. O papa argentino tratou essa questão tomando carona no movimento neste sentido ensaiado por seu antecessor – Bento XVI – que renunciou depois de saber da existência de um complô de morte em que era o alvo, organizado por um grupo de cardeais que lhe haviam dado um prazo para deixar o trono de Pedro.

Francisco anunciou sua decisão na terça-feira desta semana. E a reação não demorou. A partir de então, a temperança e a indulgência com que pretende marcar a Igreja, ou pelo menos o seu tempo à frente dela, perderam todo e qualquer apoio dentro e fora do Vaticano. Monsenhores de várias partes do planeta estão “fora de si”.

O dossiê, de sete páginas, segundo apurado pelo repórter, já foi divulgado nas secretarias mais importantes do Vaticano, nas congregações da fé e na Secretaria de Estado. Além de apontar os pecados do papa – entre eles não dar atenção aos problemas relacionados à Teologia, decidir tudo sem ouvir a opinião dos cardeais e ignorar os conselheiros jurídicos da Santa Sé –, os insatisfeitos pedem que a simplificação do processo de anulação do casamento seja juridicamente descosturada. Ou seja, querem que tudo volte ao que era. Os cardeais temem que, ao mexer num dos dogmas fundamentais, toda a estrutura doutrinária da Igreja venha abaixo.

Em 2012, em resposta a um casal brasileiro que pedia uma palavra dele sobre o sofrimento dos católicos divorciados, Bento XVI respondeu, em transmissão feita pela RAI: “São amados, não estão de fora, são aceitos e vivem plenamente na Igreja. Eles podem se alimentar espiritualmente da Eucaristia, estando presentes à comunhão. Os divorciados que voltam a se casar podem oferecer seu sofrimento como um dom à Igreja”. Em 2013, quando renunciou, um raio caiu sobre o Vaticano. Francisco vai resistir ou, como seu antecessor, será mais um refém nos jardins do Vaticano? Haverá outro raio na Santa Sé? Talvez não. Seus opositores não podem esquecer que ele é argentino e conhece as manhas do tango.

Em Goiás, um cenário para aventureiros

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152Há quase duas semanas ando pelas ruas de Porto Alegre recriando roteiros e, ao mesmo tempo, sentindo saudade dos caminhos do interior de Goiás que percorri em agosto. Na Chapada dos Veadeiros, a cerca de 220 km de Brasília, meus pés avançaram – acusando desconforto – sobre paus e pedras de trilhas absolutamente íngremes, empurrados pelo estoque de força de vontade que carrego comigo. Valeu o esforço?

202“Foram tantas emoções”, diria Roberto Carlos. Por motivos que não os dele, digo a mesma coisa sobre essa viagem que, ao longo de apenas dois dias – sábado e domingo -, foi da curiosidade à falta de ar diante da beleza natural construída ao longo de bilhões de anos. E, agora, o rastro que essas emoções deixaram me impõe esse tom que, embora pessoal, ainda assim ficará distante da profundidade com que as senti. Repetiria a dose? Sim. E quanto às dificuldades fora da zona de conforto? De passo em passo elas vão ficando para trás, disse a meu filho, Diego. Além disso, lá adiante a recompensa está garantida, ouvi dele, que adora esse contato estreito com a natureza.

x.x.x.x.x.

053A Chapada dos Veadeiros se localiza no pico do Planalto Central brasileiro, a 1700 metros de altitude diz uma fonte. Outra afirma que são 1676 metros acima do nível do mar. Mas não vou me deter na diferença. Esse tipo de informação o amante de aventuras encontra na internet; com mais detalhes no livro Berço das Águas do Novo Milênio, de Miguel von Behr, e também na obra História do Homem e da Terra no Planalto Central, do historiador Paulo Bertram.027

Fazem parte da Chapada dos Veadeiros o Parque Nacional criado por Juscelino Kubitschek em 1961 e hoje com 65.515 mil hectares de extensão; e, fora desse parque, mais de 120 cachoeiras. A maioria delas fica na área do município Alto Paraíso de Goiás, declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Além disso, ele funciona como imã, atraindo grupos místicos e esotéricos para os quais a região oferece um “novo modelo de vida e paradigma para o homem do novo milênio”, segundo conta Miguel von Behr em seu livro.

Isso explica alguns aspectos que saltam aos 114olhos dos visitantes. Entre eles, a estrutura que, na entrada da cidade, lembra uma nave espacial. Outra: casas, templos e santuários construídos em forma de pirâmide com um cristal no topo remetendo ao tempo do garimpo em Vila São Jorge, onde o gerente da pousada Águas de Março lembra, com uma nota de orgulho, que “aqui já trabalharam mais de 4 mil garimpeiros”. Uma terceira característica é a profusão de centros de terapia holística. O traço de união entre todos eles talvez seja a crença em que o Planalto Central do Brasil se construiu com a contribuição de extraterrestres.117

Geologicamente, a região é a mais antiga da América do Sul – de 570 milhões a 4,7 bilhões de anos – e “já era um continente quando o resto do mundo ainda estava submerso nos oceanos (Behr)”. Também historiador, Ignazio Schmitz afirma que 9 mil anos antes de Cristo o Planalto Central já era habitado por humanos e, como prova disso, cita os desenhos rupestres encontrados em abrigos rochosos. Seja como for, o fato é que a Chapada dos Veadeiros chama gente de tudo quanto é lado do planeta.

Um exemplo disso? Em Alto Paraíso de Goiás, o dono do restaurante La Vitta è Bella é italiano. E anche Fabrizio, o chef que tem o segredo de uma massa muito saborosa. Di dove? Di Brescia, responde. Pela janela ouço, mesmo sem querer, a conversa entre uma professora e um turista alemão. A atendente conta que uma comunidade de norte-americanos está em plena formação e já tem cerca de 40 famílias que passam metade do ano em Alto Paraíso e a outra metade nos Estados Unidos. No restaurante Tapindaré vejo a mãe correndo atrás da filha. Pede calma e ralha em francês. Em algum momento, as três línguas – e outras – acabam competindo com o rumor das águas nas cachoeiras.

Simples por escolha

108A “porta de entrada” é Vila São Jorge, extremamente receptiva e simples. As ruas ainda são de terra batida, o que significa muita poeira em épocas como agora, quando as nuvens de chuva chegam e se afastam ligeirinhas, deixando para trás alguns pingos que o calor consome num piscar de olhos.

Segundo o dono do Campanella – nome da flor que enfeita a lateral da fachada do restaurante -, a verba para o calçamento já foi aprovada, e os moradores reclamam do atraso no começo da obra. Mas ele faz uma ressalva: “Não queremos asfalto; queremos que a prefeitura use um tipo de pedra que, com um desenho apropriado, deixe a água fluir para dentro da terra”. Essa preferência, além de mostrar preocupação com o meio ambiente, confirma uma primeira impressão: a simplicidade da vila é uma escolha para agradar ao tipo de turista que busca contato com a natureza, mesmo que isso lhe exija aceitar alguns desconfortos.

107Os hotéis da vila têm estrutura de pousada. Como a Águas de Março, onde alguns quartos são distribuídos em desenho semelhante ao de uma ocara e a fachada funciona como galeria de arte, expondo objetos que fazem parte da história da região; nas portas desses quartos, a gerência pendurou quadros com versos da 143música de Tom Jobim; e o frigobar permanece vazio se o próprio hóspede não providencia um conteúdo. Café da manhã? Sim. Almoço e jantar? Não. Mas isso não é problema, porque o povoado oferece algumas boas opções. Entre elas, o Santo Cerrado Risoteria & Café e uma 132pizzaria capitaneada pelo chef que, entre uma e outra fornada, sobe no palco e acompanha as moçoilas no remelexo de um samba ou de qualquer outro ritmo.

Aliás, comer é o que menos faz um aventureiro na Chapada dos Veadeiros. Pelo menos durante o dia. Toma-se, isto sim, muita água. Ela não pode faltar na mochila de quem sobe e desce, às vezes engatinhando, as trilhas de acesso às cachoeiras – são mais de 120 -, porque o sol e o ar muito seco nesta época do ano formam uma combinação difícil de suportar. O caminhante sua. Muito. Sauna ao ar livre? É o que parece, embora a temperatura média anual na região não passe de 26 graus, segundo os meteorologistas. Quem olha e vê descobre aqui e acolá uma flor típica do Cerrado – como a Sempre Viva – mostrando que a vida também é uma questão de adaptação, ou de milagre, mas a sombra é raríssima, porque as árvores exibem galhos nus. E nem é preciso dizer que essa secura se reflete no ânimo.

Três roteiros em apenas um dia

Os trajetos que percorremos no primeiro dia somaram 12 quilômetros, começando pela 176trilha rumo ao Vale da Lua, onde a estrutura da recepção é mínima. Suficiente apenas para pagar o ingresso – R$ 20,00 – e anotar nome e idade. Esse cuidado certamente terá utilidade se o dono da propriedade for obrigado a tomar alguma providência de socorro. Ou outra. A partir daí até o vale, onde o formato e aparência das pedras realmente remetem à Lua – mesmo que, como no meu caso, o visitante nunca tenha estado lá e só leve a cabeça cheia de fantasias sobre as crateras lunares –, algumas virtudes se 162fazem necessárias ao astronauta sem nave: paciência, resistência e cautela, mas principalmente humildade para admitir quando as forças capengam e ele precisa, AGORA JÁ, de uma sombra ou de uma árvore – ainda que mirrada – em que possa dar um abraço, trocando energia.

158Finalmente lá. No Vale da Lua. Então o esforço feito vira deslumbramento. Mesmo que a água escorra pouca entre as pedras e forme poços apenas pequenos – insuficientes para um banho – a beleza do lugar é tamanha que o visitante silencia. Quem faz o espetáculo são as pedras. E ele é grandioso. Quem é o autor? De onde veio tudo isso? Da Lua, acreditam muitos. Trabalho longo e persistente da água, explicam os geólogos. Talvez de ambos. É lindo. É misterioso. Reverencio o artista.

180Gostaria de ficar, mas a trilha que leva às quedas de água de Almécegas também está no roteiro da manhã de sábado. O valor do ingresso é mais salgado: R$ 30,00. E lá vamos nós, novamente enfrentando paus e pedras. No meio do caminho, encontramos um personagem em aparente posição de vigília. É um cupinzeiro que alguém, bem inspirado, transformou em totem. Aliás, isso me lembra de que, afora a impressionante formação rochosa, os cupinzeiros são presença constante nas grandes extensões de terra ao longo das rodovias. E chamam a atenção.

191Almécegas é imponente. Embora a água agora não tenha o volume próprio dos meses de chuva, ainda assim é generosa e forma um poço em que pessoas podem nadar enquanto outras lagarteiam sobre as pedras. Tem mais: no alto do paredão tem gente em torno de várias piscinas naturais. É para lá que aponta o menino loirinho enquanto se queixa: “Papi, Ich habe Hunger” (Papai, eu tenho fome). Rápido, o pai pega a mochila, abre o pote que tira dela e alimenta o filho a colheradas. “Du auch?” (tu também?), pergunta à filha. Não, ela só quer trocar a roupa molhada por outra, seca. E ele faz o que a menina pede. A 196mãe? Está na água com uma amiga. E também o marido dessa amiga cuida de suas crianças. Quando todos se reúnem a tagarelice toma conta descrevendo sensações e impressões. Por volta de uma da tarde o grupo familiar deixa o cenário da cachoeira e, subindo a trilha, os pais levam os filhos menores nos ombros. Bonito de ver.

Mas o dia ainda não terminou. Na 209Cachoeira das Loquinhas – também a R$ 20,00 o ingresso – uma família de micos curiosos acompanha a parte inicial da nossa caminhada em direção às várias quedas de água, onde há uma predominância da tranquilidade. O ambiente é propício para casais apaixonados, para alguém contemplativo e para a mulher que, na terceira idade, se diverte com o netinho na “cachoeira da vovó”. A própria trilha antecipa esse clima, porque é confortável se comparada com as demais. Nela, em grande 215parte o visitante segue por um caminho em que paus e pedras foram cobertos por ripas de madeira, formando extensões planas e escadarias.

Mesmo assim o corpo reclama. É hora de voltar à pousada na Vila São Jorge para tomar um banho, jantar e descansar. O dia seguinte vai exigir mais uma dose de muita energia, antecipa a jornalista norte-americana Anna Edgerton, que conhece nosso próximo objetivo e me conta que a “Raizama é dramática”. E, por isso, é sua preferida entre as cachoeiras que já visitou no Planalto Central.

Logo na chegada noto uma diferença em relação às demais: a recepção é muito gentil. José, o administrador, conta que vamos percorrer 1.150 metros na ida e outros 1.150 na volta. Total: 2.300 metros.014 Mais tarde, completada a façanha, ele ri malicioso quando sugiro uma revisão nessas medidas, “porque a distância vencida parece bem maior”. E abana a cabeça, conta que acaba de visitar a queda de água Pajé, mas admite que o caminho de retorno talvez precise de uma reavaliação.

Ouvindo a conversa, Ilê apenas sorri. Índio da tribo Terere, “que vive na fronteira da 017Bolívia com o Brasil”, ele vende seu artesanato – “tudo fabricado por mim” – atrás do palco em que João, filho de José, promove seus espetáculos dedicados ao rock para públicos vindos de todos os cantos do país e até de fora. A troca de ideias vai indo bem, mas é interrompida por Diego, que anuncia a chegada de um “lagarto” à procura de comida.

020Não, explica Ilê. “Este é um 023camaleão do Cerrado”. O artesão observa as reações do “remanescente de dinossauro” que, segundo conta, é muito arisco e costuma fugir rapidamente ao menor sinal do que possa interpretar como ameaça. Pelo jeito não é o caso agora, porque o camaleão fica ali, comendo e posando para a máquina fotográfica. Só depois vai embora, sempre calmo, e nos presenteia com um amplo bocejo antes de sumir no meio das pedras.

006003Mas a Raizama é mesmo tão “dramática”? Sim, Anna tem razão. No entanto, vi drama também no acesso em que o visitante se vê entre precipício e rocha; subindo e descendo escadas em que os degraus são absolutamente inseguros. O risco de escorregar exige permanente atenção – José nos alertou sobre isso -, porque um pé em falso pode ter consequências sérias. E sem possibilidade de socorro imediato.

Aliás, o socorro é difícil em qualquer uma das trilhas percorridas. Inclusive na última desse programa de final de semana, na Cachoeira dos Cristais. Ali, o preço de entrada é de apenas R$ 10,00, embora a estrutura seja bem maior que nas demais, incluindo camping, bar para lanches rápidos e espaço para o que se pode definir como piquenique. Afora isso, a trilha começa na primeira queda de água e vai descendo. No caminho estão: a Da Paz, a Paraíso e outras. A última e mais importante é a Véu de Noiva.

Fácil? Muito. Como diz o 047provérbio, “para baixo todo santo ajuda”. Duro é voltar ao topo. Lá pelas tantas, sem uma árvore ou um arbusto que pudesse abraçar, o único jeito de seguir adiante foi engatinhar. Fiz exatamente isso. E vi outros fazendo.028

Valeu a pena tanto esforço? Tanto, que estou me preparando para a próxima aventura em Goiás. Mas agora já sei que as distâncias nem sempre são aquelas que vemos ou gostaríamos de percorrer para chegar a nossos objetivos. São aquelas que percebemos quando metemos os pés na água e eles não encontram o fundo.

Pelas ruas e avenidas do Brasil

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Estão em toda parte, ao longo dos caminhos que percorro em Porto Alegre, aonde a noite chega mais cedo e mais fria no inverno, usurpando pedaços do dia.  Estão pelas calçadas em número cada vez maior. Estendendo a mão. Pedindo.

15 de julho de 2015. Na Rua Santa Cecília, meus pensamentos são interrompidos. Ela se aproxima e me conta seu drama. Fome. Fala quase sussurrando. Mais parece uma confidência. Envergonhada? Acho que sim. Então lhe dou uma ajuda também de forma absolutamente discreta e sigo meu caminho.

Meia hora depois, vejo quando um homem se mistura aos que esperam pelo ônibus da linha Jardim Ipê na parada em frente ao Bourbon Ipiranga. Nada discreto. Pelo contrário. Ele anuncia aos quatro ventos que já não aguenta tanta fome. “Meu estômago dói”, diz, a mão nele para reforçar a queixa e despertar compaixão de quem está em volta. Não duvido, porque sei, por experiência própria, que o frio aguça essa sensação. Entrego-lhe o valor da passagem, ouço um “obrigado” e tomo o rumo de minha casa. Um passo depois do outro.

Novamente na Rua Santa Cecília, mais um encontro. Dessa vez quando estou à espera de uma chance para atravessar a via pública, um pouco preocupada porque a noite já está alargando as sombras debaixo do arvoredo e a luz providenciada pela CEEE é quase nenhuma. Aliás, como de hábito. Então o jovem se aproxima. Vem correndo, com os braços abertos. Mostrei medo? Acredito que sim, porque ele anuncia: “Pode ficar tranquila; não quero lhe fazer mal; só preciso de um troco para o leite do meu menino, que não come nada desde a manhã; ele está com fome”. Meto a mão no bolso do casaco. Como não, depois de ver os olhos da criança?

E retomo o caminho para casa. Leve, em paz comigo, embora consciente de que essas ajudas são soluções apenas momentâneas. Matam a fome do estômago, mas não alcançam o que deveria ser resolvido neste Brasil: a raiz dos problemas. Um deles, a paternidade sem-noção, porque simplesmente acontece, como resultado de uma urgência, principalmente do homem. Ele descuida da precaução que deveria tomar, mas não toma, porque vê a gravidez como fenômeno unicamente feminino, como se a terra – metáfora muito usada para definir a mulher – pudesse produzir sem que nela fosse plantada a semente.

27 de julho de 2015 – Paciente, espero que o sinal abra para os pedestres na esquina da Fernandes Vieira, onde acabo de fazer algumas compras no supermercado. Então alguém me cutuca o ombro. A jovem suplica que lhe compre “pacote de fraldas, lá, naquela farmácia”. Lê dúvida na minha reação, levanta a blusa para mostrar a barriga crescida e explica: ”Fui estrupada”.  Não me deixa ir. Segue atrás de mim até a farmácia, onde já é conhecida e sabe o preço de todos os tipos de fralda. Pede as “mais baratas”.

3 de agosto de 2015. Estou com pressa e tomo um taxi. Logo no começo do trajeto, o motorista me diz que “também vendo panos de prato; é minha mulher quem faz”. Fala e mostra o produto. “três por dez”, acrescenta. Os panos são bonitos. O preço é bom. Mas, caramba! Sinto-me assaltada.

Alceu Valença vai autografar na Feira do Livro de 2015

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A voracidade do tempo já consumiu quase metade do ano. E assim, a passos largos, a cidade vai se aproximando de mais uma Feira do Livro de Porto Alegre. Na Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL), os preparativos para torná-la mais uma vez acessível e atraente aos leitores na Praça da Alfândega – também além dela – estão a mil.

A programação se encontra em processo de construção; portanto, ainda não pode ser liberada para a divulgação, informa Jussara Rodrigues, responsável pela área adulta da Feira do Livro. Mas a curiosidade leva à descoberta de boas notícias. E, entre elas, uma certamente agradará – e muito – aos fãs do compositor/cantor pernambucano Alceu Valença.20150417201244675002e Alceu Valença, foto de Yanê Montenegro

Jussara confirma a vinda dele. Valença estará em Porto Alegre no primeiro dia de novembro para autografar o livro O Poeta da Madrugada (Editora Chiado) e para conversar com seus leitores. A obra reúne poemas que ele compôs ao longo de várias décadas, de 1967 a 2014, a maior parte deles em Lisboa. O prefácio é do angolano José Eduardo Agualusa.

Embolada do tempo é um dos poemas: “O tempo em si/ Não tem fim, não tem começo/ Mesmo virado ao avesso não se pode mensurar”. Se Alceu Valença teme os efeitos da celeridade das horas, dos dias, das semanas, dos meses e anos?  Não. “Caminho todos os dias, não fumo, não bebo, nunca usei drogas. Envelhecer não me amedronta. O que me amedronta é a burrice, a ignorância, a crescente diluição da identidade brasileira, o retrocesso político com jovens incautos pedindo a volta da ditadura, o período mais tenebroso de nossa história. Mas, felizmente, a poesia sempre salva”, diz.

Em contrapartida a essa boa notícia, a edição da Feira do Livro deste ano será menos internacional, porque não terá a presença de autores de um país convidado. Segundo informações extraoficiais, a CRL tomou essa decisão com base em uma constatação. A de que, da maneira como vinha ocorrendo, a participação de um país homenageado não contribuía muito com os objetivos da Feira do Livro, pois a Câmara acabava assumindo uma série de gastos, e os resultados não eram os melhores. Essa percepção, segundo ouvi, ficou mais nítida no ano passado, quando os autores trazidos do Canadá não tinham obras publicadas no Brasil e eram praticamente desconhecidos entre os leitores.

Com a natureza como cenário

A Feira do Livro tem, tradicionalmente, mais um foco de grande importância e agito. É a Área Infantil e Juvenil, de estímulo à formação de leitores. E ela já está com a “programação completamente fechada”, conta Sônia Zanchetta, que coordena o setor. Alguma mudança em relação ao que os visitantes encontraram no ano passado?

Sim. Em 2015, a Feira voltará a estreitar seus laços com o rio, pois ocupará parte da área central do Cais, onde “vamos instalar um teatro – rebatizado como Carlos Urbim – para 600 pessoas”, conta Sônia. Ela acrescenta que o palco ficará à beira do Guaíba e terá fundo retrátil para que, em concertos e algumas atividades, o cenário seja a própria natureza. “O fundo será fechado com uma cortina preta, e a plateia estará acomodada sob o telhado do pórtico central”.

Tudo a ver com o tema central da Área Infantil e Juvenil “Alice no País das Maravilhas”, marcando também em Porto Alegre os 150 anos que a primeira edição do livro completa em 2015. Um detalhe interessante: o autor, Lewis Carroll, pseudônimo do tímido Charles Lutwidge Dodgson. Em sala de aula, o reverendo entediava seus alunos de Matemática, mas como escritor conseguiu entregar-se à fantasia em que, no entanto, não abriu mão do pensamento lógico, presente no interesse da menina por jogos e enigmas.

Mas a programação da Área Infantil e Juvenil não se resume ao tempo em que os livros estão na Praça da Alfândega. Ela começa bem antes, visando à preparação dos pequenos leitores para o encontro com os autores e suas obras. Nos dias 2 e 3 de julho, as escolas que participarão do programa de leituras Adote um escritor escolheram 128 autores, em esforço conjunto de professores, bibliotecários e outros mediadores de leitura, da Smed (Secretaria Municipal da Educação) e da Seduc (Secretaria do Estado da Educação). Outro quadro da área é o Autor no palco. Sônia Zanchetta cita alguns: Heloisa Prieto, a mineira Stella Maris Rezende, o paulista Pedro Bandeira, João Anzanello Carrascoza, o ilustrador Ivan Zigg e Kátia Canton.

A paulistana Heloisa Prieto é autora de mais de 40 livros. Ela prega o estímulo à leitura nas crianças mesmo antes da alfabetização, sempre com total liberdade para que escolham. “É um equívoco o adulto querer nortear a leitura infantil, decidir o que é bom e o que é ruim. Outra coisa importante é o livro-brinquedo. Ele educa o olhar, a atenção. Em casa, é importante respeitar as “leis do leitor”: ler o que quiser, amar ou detestar um livro, ler o mesmo título um monte de vezes, começar pelo meio, não terminar, ler o fim antes…”

A escolha do patrono

E quem será o patrono em 2015? Em agosto, a Câmara vai coordenar a escolha. Na primeira etapa, como de costume, empresas associadas, patronos de edições anteriores e ex-presidentes da entidade indicarão cinco nomes. A segunda parte ampliará o número de votantes, incluindo representantes da comunidade cultural e parceiros especiais da Feira.

A tendência é que o escritor viajante Airton Ortiz passe o bastão a um de seus quatro concorrentes em 2014 – Maria Carpi, Celso Gutfreind, Cíntia Moscovich e Aldyr Schlee –, mas eles terão que disputar a honraria com quem vai entrar na corrida agora. Pode ser Vera Teixeira de Aguiar, professora da Pucrs e muito reconhecida por seu trabalho de estímulo à leitura com ênfase nas crianças. A artista plástica e escritora Paula Mastroberti criou uma fanpage no Facebook para sua professora de pós-graduação e salienta que Vera tem contribuído com a Área Infantil e Juvenil da Feira do Livro.  Entre os livros que a professora já publicou estão: Ler e brincar: o dado mágico (Edipucrs, 2009); e Poesia fora da estante para crianças (Projeto / L&PM, 2003). O nome do eleito será anunciado em setembro.

A água deve ser privatizada?

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No Facebook está rolando a inconformidade de gente em relação a declarações feitas pelo empresário austríaco Peter Brabeck-Letmathe, presidente da Nestlé desde 2005. Ele defende a privatização da água. A propósito disso, lembrei de uma entrevista que encontrei no jornal alemão Die Zeit (versão online) sobre o mesmo tema. Resolvi traduzi-la e reproduzi-la neste espaço.

“A água precisa de um preço”

Empresas privadas podem ajudar a abastecer o mundo de água, diz o especialista Denis Schmidli. Mas como é possível conciliar interesses econômicos com responsabilidade? Reportagem de Alexandra Endres.016

PSenhor Schmidli, por que investidores devem investir em água?

Denis Schmidli: A água é um recurso escasso. Já agora mais de 800 milhões de pessoas, mundo afora, não têm qualquer acesso à água potável. Na verdade, podem ser até mais, porque a população cresce. Em 2050, o planeta Terra terá 9 bilhões de habitantes, segundo projeções; hoje são 7 bilhões. Um número cada vez maior de regiões sofre os reflexos da falta de água. Sem água não se pode sobreviver, é o primeiro passo para que se possa ter uma vida digna.

PEmpresários ativos no setor da água querem, antes de tudo, fazer negócios. Por que deveriam se interessar pelo bem-estar dos pobres?

Schmidli: A indústria da água dá sua contribuição para reduzir o problema de escassez. Concordo quando se diz que o recurso é seguidamente politizado. É preciso defender o direito básico e fundamental de todo ser humano à água. Mas para que isso seja possível necessitamos de uma rede de abastecimento, necessitamos de tecnologia – os estados não conseguem, sozinhos, providenciar essa infraestrutura. Quem fornece a tecnologia é o empresário. Muitas empresas têm peso na bolsa de valores, onde se oferece a possibilidade de investir nelas. O investidor lucra, seu dinheiro produz algo de bom, no fim também os consumidores são beneficiados. Esta é uma clássica Win-Win-Situation (situação em que todo mundo ganha).

PPara isso é absolutamente necessário privatizar o abastecimento público da água?

Schmidli: Não é totalmente necessário. Mas em alguns países o Estado não tem a menor condição financeira para fazer os investimentos. Na China, por exemplo: lá é preciso instalar infraestrutura em povoados onde a rede de abastecimento nunca chegou, e alguns desses povoados crescem muito rapidamente. A mão pública não pode arcar com esse benefício nessas dimensões, mas empresas especializadas, com Know-how adequado, podem contribuir tanto como fornecedoras de tecnologia quanto como especialistas em abastecimento.

PUm argumento que o senhor usa para chamar investidores diz:  “O preço da água sobe mais que a inflação”. De que forma isso serve ao direito que os pobres têm à água?

Schmidli: A água precise de um preço. Só quando isso acontecer a humanidade vai lidar de forma sensata com esse recurso. Eu não consigo imaginar que os preços cheguem a um patamar impagável. Na China,para ficar no mesmo exemplo, a instalação da rede de abastecimento custa significativamente menos que na Alemanha, mesmo quando feita em nível igual de dificuldade. Estados têm seu próprio interesse em evitar o surgimento de conflitos por causa da água. Empresas só operam onde seus interesses comerciais são viáveis. E os consumidores se retraem quando os preços sobem demais.

PIsso já aconteceu. Na Bolívia, investidores internacionais deixaram Cochabamba depois de protestos. Também em La Paz moradores protestaram contra um consórcio com participação do Suez, do qual participa o Pictet-Wasserfonds. Como lida com conflitos desse tipo?

Schmidli: Nós asseguramos o ambiente político, regulatório e operativo em que uma firma atua no nosso processo de investimento. As empresas são testadas de acordo com critérios que analisam sua capacidade de concorrência em diversos setores, entre os quais, sua saúde financeira, seu interesse na ecologia e o ambiente de trabalho que oferece a seus empregados. É que, em longo prazo, um não funciona sem o outro. Examinamos os interesses de todos os grupos que serão influenciados pela atividade empresarial. Desdobramentos políticos também desempenham um papel.

PNo momento, quais são os desenvolvimentos mais importantes no mercado da água?

Schmidli: Países em crescimento ganham cada vez mais importância. Á China declarou a água recurso fundamental do século XXI. Naquele imenso país, a água é escassa, mas sem água não há desenvolvimento. Por isso o país precisa investir no abastecimento de água, em técnicas modernas. Isso leva a uma tecnologia de transferência, através da qual as empresas chinesas poderão crescer novamente. Para nós, isso abre as portas para novas possibilidades de investimentos.

Outro impulso para o desenvolvimento é o abastecimento industrial. Um número crescente de empresas delega as instalações da rede de água a especialistas. Um fato é que, desde 1900, o consumo de água pelas indústrias cresceu muito mais que o privado.

O terceiro impulso: a via pública vai tentar transferir tarefas a um custo menor, através de licitações. O abastecimento de água permite isso. Atores privados podem, em muitos casos, se organizar de forma mais eficiente. Esse tema vai ganhar importância nos próximos anos.

PPortanto, os investimentos de maior peso são possíveis em países em desenvolvimento ou industrializados. O que vai acontecer com os pobres? O senhor disse que empresas privadas podem transformar o direito desses países à água em realidade.

Schmidli: As condições do cenário precisam favorecer os investimentos. Um país instável, que é corrupto ou inseguro, assusta os investidores. Este é o grande problema. E não é bonito. Mas os próprios países precisam mudar isso. As empresas não podem impor nenhuma segurança para investimentos.

 

 

A melhor arma da liberdade

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O patrono autografa no dia 6 de novembro, a partir das 18hortiz 10649579_943177169029282_685019266483657204_n

 

“Finalmente”, Airton Ortiz! O advérbio usado pelo presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, Marco Cena, quando anunciou o patrono da 60ª Feira do Livro, faz muito sentido. Afinal, combinação de romancista, jornalista e viajante que divide com os leitores as aventuras radicais que protagoniza mundo afora, Ortiz acarinhou estoicamente a expectativa dessa honraria em nove edições anteriores.

E agora? Pensou em algum jeito especial para marcar esse momento? A resposta vem sem pestanejar: “Como sempre fiz, estarei na Feira do Livro todos os dias”. É verdade. Desde 1975, Ortiz só faltou à edição de 2013, mas tinha uma boa justificativa. Longe do Brasil por um ano, estava preparando seu 17º livro – Paris, uma reunião de crônicas – que vai lançar agora, enquanto patrono.

“Bueno”. Essa foi a sua primeira palavra em fala rápida antes do anúncio de seu nome como patrono. E ela o recolocou no cenário de uma palestra em Caçapava, onde um ouvinte ressaltou que havia gostado “principalmente do bueno”. Seguiu nesse tom. Contou que sua persistência na espera pela honraria teve o incentivo até do porteiro do prédio onde mora. “Não desiste”, ouvia dele.

Recordou Tempo de Solidão. Foi seu primeiro livro, uma seleção de poesias, de 1975. Naquela época, a liberdade de expressão estava amordaçada no Brasil, “mas combatíamos a ditadura com poemas que vendíamos nos bares, substituindo o fuzil”. Um detalhe: quem pagava a impressão das poesias eram os autores. Depois criou a Cooperativa dos Escritores. E quando o governo do então presidente Geisel editou um “pacote ordenando o fechamento do Congresso”, a cooperativa lançou o livro também chamado Pacote.

A Editora Tchê foi um longo capítulo na vida de Airton Ortiz. Ficou no ar durante 15 anos, lançou cerca de mil títulos e “causou um boom do livro gaúcho”. Hoje, “gosto de pensar que sem a Tchê os brasileiros não teriam lido cinco milhões de livros”.

Nas mais de 50 palestras que realiza por ano – e como patrono de 15 feiras no interior -, ele insiste em que “ler não é um dever; é um direito”. Básico. Agora leva essa bandeira à Feira do Livro de Porto Alegre. Com uma certeza: “O livro é a maior e melhor arma que temos na luta pela liberdade”, porque “dissemina ideias”.

Como afirmou em entrevista coletiva no auditório Museu de Direitos Humanos do Mercosul, Ortiz acredita que, ao contrário do que muitos imaginam, “são as ideias, não as armas, que fazem revoluções”. Como exemplo disso, o patrono citou a Revolução Francesa em que Humanidade, Fraternidade e Liberdade foram “ideias que transformaram rebeldes em revolucionários”. Por isso a Feira do Livro é, na visão dele, uma “praça de batalha não armada”, como foi a proposta de Ghandi, que pregou a resistência passiva – sem armas – pela independência da Índia do jugo britânico na metade do século passado.

P O próximo livro já está em andamento? Sobre o quê?

Airton Ortiz – O próximo livro seria um romance que se passaria na África, contando a exploração do marfim, mas a região está sob epidemia do vírus ebola. Então estou pensando em escrever um novo volume da coleção Aventuras pelo Mundo, sobre cidades. No caso, Nova York.

 PO que lhe custam, física e emocionalmente, as aventuras radicais?

Airton Ortiz – Preciso estar saudável e ter um bom preparo corporal, além de algumas habilidades especiais para sobreviver na natureza selvagem. Emocionalmente é mais complicado. Ainda temos muito pouco domínio sobre o nosso lado emocional e isso pode nos levar ao descontrole diante de algumas adversidades, não apenas físicas, mas também emocionais e psicológicas.

P Já esteve em 80 países. Para quantos deles voltaria a qualquer momento e por quê?

Airton Ortiz – Os três países mais interessantes que já visitei são a Tanzânia (pela natureza selvagem, em especial os grandes animais, como os chamados “Big Five” – leão, elefante, girafa, rinoceronte, hipopótamo – encontrados em todo lugar, pois um terço do país é formado por parques nacionais); o Nepal, por causa das belezas naturais. A fronteira sul do país está no nível do mar (floresta tropical) e a fronteira norte tem a cordilheira do Himalaia, com os pontos mais altos da Terra. Entre esses dois extremos, distantes apenas 200 km um do outro, temos todos os ecossistemas existentes no planeta, incluindo flora e fauna; e a Índia, país com a maior diversidade cultural do mundo. E eu considero a diversidade o que de mais importante a humanidade já construiu.

PDá para conciliar todas as diferenças? O teu “bueno” nunca se espanta ou se recolhe?

Airton Ortiz – O que se deve fazer é respeitar as diferenças, pois elas são o que temos de melhor. O diferente nos completa, mas desde que continue diferente. O meu “bueno” se espanta, sim. Por exemplo, diante do “oxente” nordestino, do “Ok” cosmopolita, ou do “namastê” indiano; e espanta também. Isso é muito bom, pois marca o que temos de melhor: a capacidade e o direito de sermos únicos. E sempre que surge um ditador, a primeira coisa que ele faz é unificar tudo, inclusive o pensamento. Lembra como o Getúlio aboliu as bandeiras estaduais e a ditadura militar criou a Globo?

Título: Quem é Airton Ortiz

A família era humilde. Assim, o menino nascido em Rio Pardo, no dia 27 de novembro de 1954, calçou seu primeiro par de sapatos somente aos 10 anos de idade. Mas já sabia da existência de um mundo imenso e rico além de sua paisagem cotidiana, porque ouvia a rádio Guaíba. Influenciado por ela decidiu que seria jornalista. Estava com 14 anos.

Depois também virou empresário. Mas tomou uma decisão revolucionária quando voltava de uma viagem ao México: aposentar a rotina e abdicar do conforto para se aventurar em viagens radicais. Desde então foi ao Tibete, ao Kilimanjaro e a outros lugares em que mortais comuns não ousam colocar seus pés. Desde então escreveu 17 livros. E, em dois deles, revela mais uma face: a de romancista.

Sobre suas aventuras radicais ele diz: “Já me perguntaram se é difícil escalar uma montanha, mas o difícil mesmo é chegar à conclusão de que escalar aquela montanha é importante pra ti. Tem que ter CHA: Conhecimento, Habilidade e Atitude, ou seja, tem que se conhecer em primeiro lugar, tem que possuir habilidades e, o mais importante, é necessário que se tenha atitude para colocar tudo isso em prática. Sem atitude somos simples mortais e não iremos a lugar nenhum”.

Título: Obras de Airton Ortiz  –1999 – Aventura no topo da África; 2000 – Na Estrada do Everest; 2001 – Pelos caminhos do Tibete; 2002 – Cruzando a Última Fronteira; 2003 – Expresso para a Índia; 2004 – Travessia da Amazônia; 2005 – Egito dos faraós; 2006 – Na trilha da Humanidade; 2007 – Em busca do Mundo Maia; 2008 – Cartas do Everest; 2009 – Vietnã pós-guerra; e Retratos da Terra; 2010 – Aqui dentro há um longe imenso; e Havana; 2011- Jerusalém; 2012 – Gringo; 2013 – Atenas; e Foi o que coube na mochila; 2014 – Paris.          

Ortiz, um Patrono solidário

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Peço desculpas aos outros patronáveis, mas fiquei especialmente feliz com a escolha de Airton Ortiz para Patrono desta Feira do Livro. Explico: em 2006, quando me encontrava em uma situação para a qual achava difícil solução ele me socorreu. Naquele ano, Ortiz me ajudou a encontrar uma banca para expor o livro Mente Criativa – a aventura do cérebro bem nutrido, do médico ortomolecular Juarez Nunes Callegaro

Trabalhei para o doutor como gost writer e ele preferiu publicá-lo de forma independente, isto é, sem editora. Lembro que na abertura da Feira do Livro daquele ano fui até a Praça da Alfândega mal podendo carregar o peso de uma mala cheia de exemplares desse livro. Estava lá, no estande do Jornal do Comércio em reunião de pauta com minha equipe, mas pensando também sobre o meu problema – os contatos que havia feito até então haviam dado em nada, porque o livro era independente – quando Ortiz chegou. Conversamos um pouco, expliquei minha situação, ele olhou o livro e me disse “espera aqui”. Voltou nem 10 minutos depois, com uma boa notícia.

Meu problema estava resolvido. O livro vendeu muito bem, Esgotou rapidamente e novas edições foram feitas, mas agora com editora. Já falei da minha gratidão ao Ortiz, mas achei que deveria compartilhá-la com meus amigos. Nunca vou esquecer o gesto solidário dele, que me tirou de uma sinuca de bico. Ele é, tenho prova disso, uma pessoa generosa, além de jornalista, escritor e amante de aventuras radicais que já o levaram ao pico do Everest e a outras paisagens do planeta.

William Waack passa do ponto

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Um vexame. Eu vi. E o protagonista foi o jornalista William Waack. No programa GloboNews Painel da edição de  9 de agosto, sábado, ele pisoteou a ética profissional com vontade. Passou do ponto, literalmente. E o que deveria ser uma entrevista sobre a situação econômica do Brasil – estamos caminhando para uma recessão? – virou espaço usado por ele para acusar o governo de “intolerante diante das críticas”. Fez isso repetidamente. E fez pior: recomendou cuidado aos economistas convidados – Luiz Gonzaga Belluzzo, da Facamp; Gesner Oliveira, da Go Associados; e Nelson Marconi, da FGV –, dizendo que uma opinião contrária ao discurso do Planalto poderia representar “perigo” aos três.  Queria intimidá-los? Parecia que sim.painelO comportamento de Waack nesse programa contrariou tudo o que aprendemos como sendo correto quando, na prática jornalística, a tarefa é entrevistar alguém. Gesner Oliveira recebeu a primeira pergunta. E sua resposta – “longa” – foi interrompida pelo apresentador, sob pretexto de passar a palavra a Belluzzo. Antes disso, porém, ele deu início ao que chamo de jogo sujo, contrabandeando para dentro da entrevista a denúncia sobre a alteração feita no perfil de Miriam Leitão e Sardenberg no Wikipédia a partir de computadores instalados no Palácio do Planalto.

Dali em diante atropelou o bom senso. Deixou claro que tem a culpa do governo nesse episódio como questão fechada, desconsiderando um fato importante: o equipamento usado para alterar os dois perfis fica numa sala de trânsito intenso, à qual muita gente tem acesso. É assim? Então, já que estamos em clima de desconfiança, qualquer um dos que frequentam a dita sala pode ser apontado como réu. Não é? Quem pode garantir que não foi alguém da própria Rede Globo quem planejou matar dois coelhos com uma cajadada, atingindo os colegas e, ao mesmo tempo, dando uma mãozinha a Eduardo Campos e Aécio Neves? Por isso mesmo essa história deveria ser muito bem investigada.

Aos que assistem o GloboNews Painel não passa despercebido – não tem como não notar – a frequência com que Waack alardeia sua vasta experiência, inclusive como correspondente em outros países, entre os quais a Alemanha. Mas no meio dessa gente há os que ouvem, pensam sobre o que ouvem e não perdoam leviandades como a que ele cometeu na edição de sábado, quando misturou alhos com bugalhos e jogou a ética profissional no lixo. E esses telespectadores não se deixam enganar assim tão facilmente.

Primeiro, porque raciocinam: a turma que está no poder e quer continuar lá seria tão simplória em sua estratégia de campanha eleitoral? O que ganharia com isso? Ganha quem lhes joga a culpa sobre os ombros. Além disso, telespectadores atentos percebem a maldade no tom de voz, mesmo quando quem fala usa a palavra como se estivesse aconselhando. Por isso, não lhes escapou no sábado que, ao recomendar cuidado aos convidados do programa, William Waack tinha outro alvo. Usando a vitrine da Rede Globo, pretendia que sua mensagem assustasse o eleitor. É ele quem deve sentir-se em “perigo” diante da intolerância do governo às críticas. Porém, o apresentador está mais uma vez superestimando sua capacidade de influenciar corações e mentes, pois quem decide a eleição é outro público, bem mais numeroso, que não vê o GloboNews Painel.

Ainda assim, o que William Waack fez na edição do programa de sábado passado ultrapassou os limites da malandragem. Foi sujeira. Da grossa. E foi também um atestado de superficialidade. Coisa de narcisista, que notaria a existência de gente bem melhor que ele se tirasse os olhos do próprio umbigo. Bem perto dele, aliás. Renata Lo Prete, por exemplo.  Wack deveria pedir à colega que lhe desse umas aulas.

Tempo desperdiçado na TV

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O senador Aécio Neves abriu a série de entrevistas na Globo News com os candidatos à presidência do País. Se a estratégia que usou é uma amostra do que veremos ao longo da campanha eleitoral, não teremos debate de ideias. Teremos guerra. Quando o programa terminou, a imagem que me ficou do tucano é a de um pretendente que corre o risco de perder a noiva, porque a obsessão em demolir o rival no coração e mente do povo votante, de quem busca consentimento para o casório, rouba dele o tempo que deveria usar para esmiuçar sua própria proposta de governo.

É perigoso subestimar esse povo. Grande parte dele, graças à política social executada ao longo dos últimos anos, saiu da pobreza e hoje faz parte da classe média. Esse povo desconfia de quem só atira pedra na vidraça do rival, mas nada de concreto oferece como alternativa.  Ele desconfia de quem se mostra tão empreendedor na arte da fuga quando chamado para dizer como irá garantir a saúde – em todos os aspectos – da enorme família que terá sob sua responsabilidade se for vitorioso nas urnas em outubro, ou em novembro (se houver segundo turno).  E a desconfiança só aumenta na medida em que o discurso expõe a contradição.

É desse mal que a estratégia de Aécio Neves sofre. A incoerência ficou evidente na entrevista a Renata Lo Prete, editora de Política da Globo News. Logo de saída, na resposta ao primeiro questionamento, ele foi absolutamente evasivo. Fiquei à espera de uma reação da jornalista; que ela tomasse as rédeas do programa e repetisse a pergunta: “O senhor critica o número de pastas do atual governo e afirma que vai reduzi-lo. Quais pastas serão extintas”? Afinal, jornalismo se faz com lógica, sim, mas também com uma boa dose de psicologia. Meu raciocínio: se um candidato à presidência do País aponta exagero na administração em andamento e o considera grave desperdício de dinheiro público deve saber onde o abuso acontece. Então deve saber também o que deverá cortar se assumir o cargo.

Mas foi somente no segundo segmento da entrevista que a jornalista adotou uma postura mais incisiva. Transformou as acusações de Aécio Neves ao PT em tiro no pé, fazendo uso delas para expor contradições: apoiou a criação do Solidariedade, mas condena o que considera excesso de partidos no Brasil; acusa Dilma de solapar o setor energético, mas absolve Fernando Henrique Cardoso de responsabilidade no apagão ocorrido durante o governo dele;  afirma que, no seu primeiro dia no governo,  vai criar uma secretaria para simplificar o sistema tributário, mas condena o excesso de ministérios no governo Dilma; e o mensalão é pecado do PT, mas o escândalo dos trens – o trensalão – no governo do PSDB em São Paulo não pode ser computado ao partido. Quando sentiu a mudança do clima, o tucano apelou ao clássico “me deixa falar”.

A jornalista deixou. E ele continuou dizendo o equivalente a nada já que o foco da entrevista era a sua proposta de governo.  A única pergunta que Aécio Neves, homologado candidato no sábado, respondeu sem tergiversar foi esta: “Sua candidatura à presidência é uma questão circunstancial ou de destino”? E, claro, ele se acredita predestinado. Com a bênção de Tancredo Neves. Mas, para ombrear com o avô na política, ele precisa ainda vencer inimigos na própria trincheira. Falta-lhe consistência. Falta-lhe um projeto. Por enquanto é refém do PT e Dilma. Essa é a leitura que o programa me possibilitou.